Crônica

Sobre Felicidade, Dinheiro e Afetos

Dizem que a primeira impressão é a que fica. A minha, ao chegar em Zurique, foi de um lugar que respira ordem e exala leveza. E mais: que abriga um povo diverso e feliz.Era meu primeiro dia na cidade. O céu azul, o calor fora de época e uma

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Carol Martins
Fundadora · ILG
7 min08 jun 2025

Dizem que a primeira impressão é a que fica. A minha, ao chegar em Zurique, foi de um lugar que respira ordem e exala leveza. E mais: que abriga um povo diverso e feliz.

Era meu primeiro dia na cidade. O céu azul, o calor fora de época e uma sensação estranha de acolhimento me empurraram para a rua, sem destino planejado. Agarrei meu livro do Sêneca — companhia ideal e frequente em meus momentos de introspecção — e caminhei até a Viaduktstrasse. Ali, onde os antigos arcos de pedra abrigam cafés e boutiques, sentei-me no único bistrô onde não havia mais ninguém à volta. Sim, eu estava a fim de me curtir em silêncio.

A garçonete se aproximou e colocou o cardápio na mesa, com delicadeza: — “O que vai querer comer, bela senhora?” — perguntou, num inglês que parecia vir do norte da Itália. — “Será que teria problema se eu não comesse… e só tomasse uma taça de vinho?” Ela sorriu com naturalidade: — “Óbvio que não. Se eu pudesse, faria o mesmo.”

Ela era alta. Tinha um caminhar firme e um olhar penetrante — desses que parecem enxergar além do trivial. Havia algo de jovial em sua expressão, embora a segurança dos movimentos denunciasse certa maturidade. Os cabelos, escuros e volumosos, estavam presos num coque alto improvisado, mas chique. Não era uma beleza óbvia, mas dessas que intrigam.

Não quis arriscar e pedi algo familiar: — “Uma taça deste Torrontés argentino, por favor. E uma água com gás bem gelada.” — “Ótima escolha” — ela respondeu, sorrindo.

Minutos depois, deixou na mesa a taça de vinho branco — mais cheia do que deveria, aliás —, a água e uma pequena delicadeza: um punhado de nuts tostados, salgados à medida, num potinho de porcelana que parecia ter sido feito à mão.

Pediu licença e me convidou a provar o vinho. Fechei o livro com cuidado e dei um gole. — “Está perfeito, obrigada!”

Ela, curiosa, espiou a capa com naturalidade e me surpreendeu: — “Sêneca? Um dos meus estoicos favoritos.” — “Sim… minha melhor companhia para hoje” — respondi, sorrindo, com aquela sensação rara de ser compreendida por alguém que mal conheço. — “Aproveita!” — disse, com alegria sincera, como se ficasse feliz por me ver curtindo aquele instante.

Quando se viaja sozinha, nenhuma reflexão é coincidência. Observei a leveza daquela garçonete simpática, a serenidade ao redor, e logo me deparei com um trecho emblemático da Carta 59 de Sêneca a Lucílio:

“A felicidade é um estado contínuo de alegria, não perturbado por nenhum medo ou desejo.”

Foi então que aquela pergunta que sempre me ronda voltou com força total: seria a felicidade, como queriam os antigos filósofos, um estado de espírito — uma forma de ataraxia, essa serenidade interior que nasce da ausência de perturbações — ou estaria ela inevitavelmente atrelada ao conforto material e à ausência de preocupações fundamentais, que, no contexto atual em que vivemos, estão inegavelmente ligadas à estabilidade financeira?

A partir de 450 mil entrevistas, dois ganhadores do Nobel de Economia — Daniel Kahneman e Angus Deaton — tentaram, em uma pesquisa amplamente citada de 2010, responder a uma daquelas perguntas que sempre me rondam: “o dinheiro compra felicidade?” A conclusão traz uma distinção importante. Enquanto a avaliação da vida — a forma como refletimos racionalmente sobre nossa trajetória — melhora de maneira contínua com o aumento da renda, o bem-estar emocional — a qualidade das experiências cotidianas — cresce apenas até certo ponto: algo em torno de 70 a 75 mil Dólares por ano. A partir desse ponto, não há avanços significativos na frequência de emoções positivas, como alegria ou serenidade. Em outras palavras, altas rendas podem comprar satisfação, mas não garantem felicidade emocional. Segundo Kahneman e Deaton, o dinheiro, portanto, tem o poder de aliviar a dor — mas não de preencher o vazio.

Há também outra pesquisa emblemática que buscou compreender, ao longo de décadas, o que realmente sustenta uma vida feliz. Trata-se do Estudo de Desenvolvimento Adulto de Harvard, iniciado em 1938 e ainda em andamento — o mais longevo estudo já realizado sobre a vida adulta. Acompanhando a vida de centenas de pessoas ao longo de mais de 85 anos, os pesquisadores chegaram a uma conclusão contundente: os vínculos humanos são o principal determinante de bem-estar e longevidade. Mais do que riqueza, fama ou sucesso profissional, o que melhor prediz uma vida plena e saudável é a qualidade das relações que cultivamos ao longo do tempo. Ter com quem contar nos momentos difíceis, sentir-se amado, ouvido, pertencente — tudo isso protege tanto o corpo quanto a mente.

Aristóteles já intuía que ninguém floresce sozinho — a ciência, séculos depois, apenas assinou embaixo: a felicidade, para ser duradoura, precisa, afinal, de laços!

Depois de esvaziar minha taça e anotar algumas reflexões — sementes deste texto — fui até o balcão para pagar. A garçonete — Monika, como logo descobri — me perguntou de onde eu era e se morava por ali.

Expliquei, meio sem saber por onde começar, que morava entre Portugal e Brasil, e que estava em um sabático após alguns meses turbulentos. Havia deixado meu emprego — um cargo sólido no mercado financeiro — e também um relacionamento que, até pouco tempo atrás, acreditava ser o último.

Ela riu com os olhos, como quem reconhece o terreno. — "Fiz exatamente a mesma coisa", disse, ainda com o pano de prato em mãos.

Monika era húngara, mas de família com sangue italiano, o que já era incomum. Trabalhara por anos em um hotel de luxo em Budapeste, onde chegou a ocupar um cargo importante mas bem estressante. Um dia, após uma discussão com o dono da rede e o fim de um relacionamento de sete anos — com alguém que, segundo ela, ainda era o amor da sua vida — ela se encorajou e pediu demissão.

— “Decidi então que era hora de recomeçar. Vim para a Suíça sem planos. Só com vontade de respirar de novo.”

Contou que hoje não estava ganhando tanto como garçonete, mas nada lhe falta e vive com mais tranquilidade. Que o dono do restaurante, um italiano espirituoso, virou seu melhor amigo — inclusive, naquele momento, se aproximou do caixa dizendo que perdera a aposta: achava que eu fosse italiana. Rimos juntos, como se estívéssemos entre velhos conhecidos. Ela também contou que namorava um suíço cinco anos mais novo que ela atualmente, que não era o seu grande amor mas que era um ótimo companheiro.

A conversa seguiu, sem pressa. Ela mencionou uma depressão que enfrentou há alguns anos, mas da qual saiu mais forte. Compartilhei um pouco da minha história também — menos pelos detalhes, mais pela identificação.

Ela me abraçou, com uma sinceridade que não se ensaia: — “A vida é difícil, mas vale por esses encontros. Fico feliz por você já estar se sentindo melhor. Vai dar tudo certo: na profissão, no amor, em tudo. Confia!”

Foi um momento simples, mas de uma densidade rara. Entre um prato não pedido e uma taça servida com generosidade, encontrei uma estranha familiaridade com aquela mulher.

Claro, a consultora financeira que ainda habita em mim não resistiu: perguntei se ela costumava investir. Ela riu de novo. — “Não me preocupo com isso. Meu pai tem vinhedos generosos na Hungria, e sou filha única. Herança líquida e certa.”

Fui embora com a sensação de que não tomara apenas um vinho — mas partilhara um fragmento de existência. Um desses encontros que não têm manual, mas têm sentido.

Talvez Sêneca tivesse razão: a verdadeira alegria não se compra — mas se reconhece.

E, para mim, a felicidade parece ser justamente isso: uma costura entre três importantes pilares. Primeiro, condições mínimas que nos livrem da angústia do essencial — como saúde, moradia e segurança. Depois, uma disposição interna para viver com liberdade, propósito e retidão, em constante movimento e evolução. E, por fim, os vínculos afetivos que nos sustentam no caminho — aqueles encontros sinceros, mesmo que breves, que nos lembram que não estamos sozinhos.

Às vezes, a felicidade se esconde ali — entre um gole de vinho, uma troca inesperada ou uma página de um livro antigo com ensinamentos atemporais.

Aviso importante. Este conteúdo tem propósito exclusivamente educacional e não constitui recomendação personalizada de investimento. Caroline Aneli Martins é profissional certificada pela CVM. As opiniões expressas refletem a visão da autora no momento da publicação e podem mudar sem aviso. Conversem com suas profissionais de confiança antes de tomar qualquer decisão financeira.

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