Investir em ações é uma viagem.
De avião. De preferência com a Ryanair ou EasyJet, companhias low cost em que a emoção já começa na fila do embarque. Como um investidor de primeira viagem ao responder o questionário de suitability1.Quem já morou na Europa ou já fez mochil
De avião. De preferência com a Ryanair ou EasyJet, companhias low cost em que a emoção já começa na fila do embarque. Como um investidor de primeira viagem ao responder o questionário de suitability1.
Quem já morou na Europa ou já fez mochilão pelo continente sabe bem do que estou falando. Antes do embarque, os fiscais da malinha de mão fazem uma espécie de sorteio informal: escolhem aleatoriamente passageiros para colocar seus pertences naquela temida estrutura metálica de 40cm x 20cm x 25cm. Eu já tentei, por diversas vezes e em vão, entender o critério usado nesta infeliz triagem. Depois de anos de estudo empírico, concluí que a melhor estratégia é evitar eye contact2 com os agentes em solo — embora quase nunca funcione comigo (tenho o dom de ser escolhida quando o prêmio é ruim).
Se a sua mala não entrar ali, restam duas opções - uma constrangedora e a outra que dói no bolso: ou você veste todos os casacos e sweaters possíveis para reduzir o volume (eu já fiz isso algumas vezes nos meus tempos de mochileira), ou aceita pagar a multa de 75 euros — normalmente mais cara que a própria passagem. O bom é que essa experiência já ensina um pouco sobre estratégia: ainda na fila, aprendemos pelo hard way3 o modelo de negócios das companhias aéreas low cost. Sim, a margem EBITDA4 está concentrada nos “extras”.
A partir daí, a tensão só aumenta. O embarque raramente acontece por um finger: você provavelmente será espremida como sardinha enlatada em um ônibus nada moderno, cujo motorista parece se divertir entre arrancos e freadas até a aeronave, geralmente estacionada em algum canto esquecido — uma espécie de subúrbio do aeroporto. Também é curioso notar que a pessoa que escaneia seu bilhete é a mesma que te pede para colocar a mala na estrutura metálica, te dá as boas-vindas na porta do avião e, logo em seguida, tenta te vender perfume, raspadinhas e um café Lavazza morno. Parece que estamos sendo perseguidos.
O voo, tal como o mercado, tampouco oferece conforto: aviões Boeing 737 de layout apertado, com corredor único, cadeiras pequenas, duras e encosto que não reclina, nenhuma opção de entretenimento e anúncios ininterruptos. Não há dez minutos de paz ao longo do trajeto de algumas horas — os avisos são feitos por alto-falantes baratos, bem altos e com um chiado irritante. A bagunça parece até intencional — como se quisessem deixar claro: você pagou barato, agora aguenta.
Voos low cost também costumam ser mais turbulentos. As companhias muitas vezes operam em aeroportos secundários, localizados em regiões sujeitas a ventos locais ou topografia acidentada, o que leva as aeronaves a enfrentarem maior instabilidade. E como a viagem é curta, elas não chegam a atingir altitudes elevadas, o que aumenta a exposição a ventos cruzados e correntes de ar próximas ao solo — especialmente entre a Europa Central e o Mediterrâneo, onde os microclimas são frequentes.
Esses dias, embarquei num voo da Ryanair entre Madri e Lisboa — mais uma viagem barata que me saiu caríssima — emocionalmente falando. Antes mesmo da decolagem, no taxi aéreo, o comandante — quase como um gestor alertando riscos em sua carta aos cotistas — anunciou com a maior naturalidade:
— “Senhores passageiros, condições climáticas previstas apontam que atravessaremos por uma tempestade. Por segurança, pedimos que mantenham os cintos afivelados durante todo o voo.”
Ali, aprofundei minha analogia involuntária com o mercado de ações. A tempestade já estava contratada. Voltar atrás? Impossível. Pedir para sair do avião não era uma opção. Só restava respirar fundo, segurar firme e confiar que o avião — ou o portfólio — aguentaria o tranco. O mais curioso é que, mesmo sabendo que voar é estatisticamente mais seguro do que dirigir até o aeroporto, meu corpo reage como se estivesse prestes a enfrentar um crash sem precedentes cada vez que o avião começa a sacudir.
Ao meu lado, sentou-se um jovem português — ar de nerd e em paz com a notícia da tempestade. Lembro de ter sentido uma ponta de inveja daquele semblante sereno. Pensei: essa sou eu quando o futuro do S&P 5005 aponta para uma abertura sinistra e o VIX6 dispara. Nessas horas, me identifico mais com o comandante do que com os passageiros. Quando um cliente começa a investir em renda variável, o aviso é parecido:
— Tem certeza de que quer entrar nessa trip? Quando a tempestade vier e o avião despencar, não vai dar para sair no meio. Vai ter que apertar o cinto e segurar firme na estratégia.
Eles costumam me olhar com aquela tranquilidade teórica de quem nunca viu o extrato no vermelho. Dizem: “Fala sério, sou racional, conheço os riscos, não vou panicar por causa de uma queda temporária.”
Mas, assim como no voo, quando estamos no meio da turbulência, parece que ela nunca vai acabar. A emoção fala mais alto. E a diferença é que, no mercado — ao contrário do avião — ninguém está realmente de mãos atadas. No primeiro drawdown7, o investidor impaciente corre para o aplicativo ou para o assessor. Vende no pânico. Desiste no primeiro solavanco. Sai da bolsa como se fosse possível escapar da turbulência no meio do ar. E, por cristalizar a perda, se traumatiza — e nunca mais embarca nessa viagem que, muitas vezes, leva a destinos incríveis.
A única forma de ficarmos realmente de mãos atadas no mercado é... morrendo. Literalmente. A Fidelity, uma das maiores gestoras dos Estados Unidos, fez um levantamento curioso: os melhores retornos estavam nas contas de clientes que já haviam falecido — ou esquecido que tinham dinheiro investido. O que prova, com um certo humor mórbido, que na renda variável, muitas vezes, fazer nada em meio ao caos é a melhor estratégia. Em voos, a morte seria o fim da linha. No mercado, pode ser o início de uma performance invejável.
Uma das minhas estratégias para atravessar os solavancos de voos com menos trauma é pensar no destino, nas paisagens, nos cafés que quero visitar, na culinária a experimentar. Quando a turbulência está em nível hard, porém, só um bom podcast que me tire daquele instante ajuda. No trecho Madri-Lisboa eu tentava me concentrar num episódio em que Scott Galloway comentava seu último livro, The Algebra of Wealth. Como a leitura não me prendeu, achei que ouvi-lo seria mais engajador — e de fato era. Enquanto isso, controlava a respiração num ritmo 1:2: inspirava em quatro tempos, pausava, e expirava em oito. Nada místico — apenas sobrevivência emocional, ensinada por anos de prática do Yoga.
Mas o meu colega de fileira parecia muito mais zen que eu. Segundos depois em que a aeronave pareceu despencar 300 metros, ele abriu seu MacBook Pro todo adesivado com logos de startups de tecnologia e começou a trabalhar no que parecia ser um pitch deck8. Fiquei abismada. Como alguém conseguia manter a calma, com o computador saltando no colo e gente gritando ao redor?
Tentei me distrair observando discretamente o que ele digitava. Em outra queda mais brusca, me agarrei com tanta força aos dois braços da poltrona que acabei, sem querer, arranhando o menino. Ele me olhou, sorriu com a calma de um monge recém saído da meditação e disse:
— Estás nervosa, miúda9?
Respondi com um sorriso amarelo — que deveria contrastar com minha pele pálida — e pedi desculpas, admitindo que sim, já estava até rezando. Brinquei que achava impressionante ele conseguir trabalhar numa apresentação naquele cenário apocalíptico.
Pronto. Era essa a deixa que ele queria. Não se pode dar muita corda para um empreendedor do sexo masculino em fase de expansão — eles logo se acham os donos do pitch10 perfeito e do futuro da economia mundial. Ele desatou a falar, num português rápido e enrolado, provavelmente Madeirense, mas não quis perguntar. Contou, animado, que era co-founder de uma empresa recém-saída de uma Series C*, avaliada em 20 milhões de Dólares. Seguiu se exibindo, dizendo que trabalhava só quatro dias por semana e já estava fundando outro negócio — agora com foco em inteligência artificial. Acho que ele esperava um “uau”, mas confesso que minha vontade era de revirar os olhos. Me contive entretanto, afinal a conversa, a despeito do show de egocentrismo, estava me distraindo (ou divertindo). Perguntou onde eu trabalhava e se empolgou quando mencionei o mercado financeiro. Quis me mostrar as projeções do novo projeto ali mesmo, no meio da turbulência. E eu, sendo eu, aceitei. Já fui logo de sincericídio: disse a ele que achava as premissas otimistas demais, que ele precisava traçar cenários mais conservadores e fazer um bom stress test* para ver se o modelo aceitava desaforo. Por um instante, achei que a nossa amizade terminaria ali. Poucas coisas são mais frustrantes para um serial founder* do que ouvir que sua ideia não é tão brilhante quanto ele imagina.
A verdade é que o pitch deck não me impressionou tanto quanto a calma dele diante da tempestade. Após outro solavanco, ele me olha com desdém:
— Não cai, fica tranquila... Eu já estou acostumado pois estou sempre voando de um lado para outro.
( Ui, sou fodástico!)
Ele não perdia a chance de exibir seu excesso de autoconfiança — algo que, no voo, poderia até ajudar, mas que nos mercados costuma ser comportamento suicida. Ainda assim, a conversa fez o tempo passar mais rápido. Ele era um “miúdo” inteligente, educado, ainda que não fizesse o meu tipo (nem de investimento, muito menos de romance).
No pouso, me pediu o LinkedIn. Adicionei, claro. Afinal, na vida — e nos mercados — nunca se sabe de onde pode vir o próximo movimento interessante.
Semanas depois do fatídico voo, ele me escreveu. Disse que queria montar um plano de investimento comigo, que pensava em começar com 100 ou 200 mil Euros. Confessou que já havia investido um pouco, mas se sentia inseguro em seguir sem algum tipo de acompanhamento. Fiquei feliz — afinal, nossa amizade tinha sobrevivido à tempestade (e ao pitch deck superestimado).
Mandei uma proposta de mentoria com um plano e orçamento. Ele agradeceu, elogiou, disse que ia pensar e me daria um retorno em breve. Retornou duas vezes, coincidindo com quedas no S&P 500. Achei um belo timing*, mas ele parecia com medo. Na primeira, comentou que estava acompanhando a elevada volatilidade dos mercados e achava arriscado demais começarmos naquele momento. Na segunda, disse que ainda não se sentia confortável em colocar o dinheiro para trabalhar com os índices caindo tanto (caía cerca de 1% no dia, nem era assim tanto). Fiquei tentada a responder: “engraçado, para quem não treme num voo turbulento, o medo do mercado parece um tanto... dissonante”.
Mas deixei pra lá. Suspeitava que o que ele queria mesmo era manter o papo, alimentar alguma conexão — enquanto eu só queria que ele começasse a investir no melhor momento possível: aquele em que tudo parece instável e ninguém quer embarcar.
Depois disso, ele sumiu. Nunca saberei se o fundador destemido (ou medroso) queria aplicar o dinheiro — ou só a narrativa. Já eu… eu sigo aqui, com os cintos sempre apertados, aproveitando cada sacolejo. Porque algumas jornadas só fazem sentido para quem não desiste no primeiro balanço.
E entre a segurança da sala de embarque e o risco de voar, eu escolho voar — sempre.
1questionário de suitability é um conjunto de perguntas que os profissionais do mercado fazem aos clientes investidores para conhecermos o seu perfil de risco e montarmos uma estratégia que faça sentido.
2eye contact = contato visual.
3aprendemos da forma mais difícil.
4margem EBITDA = margem operacional, ou a relação entre o Lucro antes de Juros, Impostos, Depreciação e Amortização com a receita. Quanto maior a margem, maior a lucratividade do negócio.
5S&P 500 é o principal índice de ações americano. Ele integra as 500 maiores empresas listadas dos EUA.
6VIX, também conhecido como Índice de Volatilidade ou "índice do medo", é um indicador que mede a expectativa de volatilidade do mercado de ações dos EUA para os próximos 30 dias, com base nos preços das opções do índice S&P 500.
7Drawdown é o termo usado para descrever a queda do valor de um investimento em relação ao seu pico mais recente. Em outras palavras, é a diferença entre o ponto mais alto (topo) e o ponto mais baixo (fundo) de um ativo ou portfólio durante um determinado período.
8Pitch deck é uma apresentação visual — geralmente em formato de slides — usada por empreendedores para comunicar uma ideia de negócio, especialmente quando estão buscando investimento.
9"Miúda" é uma palavra do português europeu (principalmente de Portugal) que equivale a "menina", “guria” ou "garota" no Brasil. Pode ser usada de forma carinhosa ou informal.
10Pitch é uma apresentação curta e direta usada para vender uma ideia, projeto ou produto, geralmente com o objetivo de convencer alguém a embarcar na proposta.
*Series C é uma rodada de captação de investimentos feita por uma startup ou empresa em estágio mais avançado.
*Stress test é uma simulação feita para avaliar como uma carteira, empresa ou projeto se comportaria em cenários extremos de mercado.
*Serial founder é usado para descrever alguém que funda várias startups ou empresas, uma atrás da outra.
*Timing seria a escolha do momento certo para fazer algo, no mercado usamos timing em relação ao momento de compra mais propício.
Recomeços
Por Caroline Martins