Crônica

Sem extremos

— Num mundo onde a tecnologia não para de avançar e com tanta gente com medo de ser substituída… o que tu dirias pra um jovem que nem entrou ainda na faculdade ou no mercado de trabalho? Como é que ele pode se preparar pra achar o lugar del

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Carol Martins
Fundadora · ILG
10 min20 jul 2025

— Num mundo onde a tecnologia não para de avançar e com tanta gente com medo de ser substituída… o que tu dirias pra um jovem que nem entrou ainda na faculdade ou no mercado de trabalho? Como é que ele pode se preparar pra achar o lugar dele?

Normalmente, as perguntas do meu pai já são cabeludas. Mas essa superou. E me pegou de surpresa. Honestamente, eu não soube respondê-lo na hora. Fiquei alguns segundos em silêncio, trocando ideias comigo mesma.

(depois percebi que, sem querer, imitei o Elon Musk, que também não soube responder essa de bate-pronto:

).

Até que falei:

— Eu diria para esse jovem, antes de tudo, se conhecer — explorar hobbies, descobrir algo em que seja naturalmente bom, que o mova a ponto de colocar toda sua energia e paixão. Afinal, nada melhor do que ganhar dinheiro fazendo aquilo que se gosta. Por outro lado, como nem todo mundo encontra propósito na profissão, eu também sugeriria dominar tecnologias e aprender outras línguas — não necessariamente numa universidade, mas em cursos livres e experiências pelo mundo, mais pelas pessoas e vivências do que pelo conteúdo em si. E diria também pra buscar conhecimento filosófico e psicológico, para aprender a lidar com frustrações e saber melhor se adaptar — algo cada vez mais essencial, e cada vez mais raro, num mundo que muda tão rápido.

Por mais profunda que eu achei ter soado, ele não pareceu surpreso. Então complementei:

— Mas deixa eu pensar um pouco mais no assunto.

Como vocês já sabem, eu penso melhor… escrevendo.

O tom da pergunta do meu pai exalava preocupação — e não parece ser algo exclusivo dele. Vejo essa inquietação estampada no rosto de muitas pessoas esclarecidas com quem converso, independentemente de profissão ou classe social. No meu círculo de amizades e nas conversas que acompanho, há quase um sentimento consensual quanto ao tema da Inteligência Artificial: medo. “Será que seremos substituídos por máquinas?”; “Qual será o nosso papel no mercado de trabalho?”; “Será que a inteligência própria que elas desenvolverão será capaz de ameaçar nossa espécie?”

Não discordo que sejam todos questionamentos legítimos, os quais refletem um desconforto válido diante do ritmo acelerado das mudanças — que quase sempre assustam. Ao mesmo tempo, percebo que estamos diante de perguntas para as quais ainda não temos respostas claras — e, por isso mesmo, somos especialmente tentados a projetar cenários extremos, e mais frequentemente, negativos.

Em abril deste ano, um grupo de pesquisadores independentes publicou o estudo conhecido como AI 2027, que apresenta uma linha do tempo apontando para o surgimento de IAs superinteligentes antes do fim desta década, levantando preocupações sobre riscos existenciais. Mais do que um exercício teórico, o estudo convida a debates importantíssimos sobre os impactos dessa nova era — do colapso do mercado de trabalho ao aumento dramático do desemprego, passando pela concentração de poder e pela dificuldade de garantir que as máquinas estejam alinhadas aos valores humanos.

Nesta mesma linha, Dario Amodei, CEO da Anthropic — uma das startups mais avançadas do mundo em IA, fundada por ex-pesquisadores da OpenAI — alertou que até 50% dos empregos de nível inicial em áreas administrativas e corporativas podem desaparecer nos próximos 1–5 anos, o que poderia levar o desemprego para algo entre 10% e 20%. As projeções da McKinsey e do Fórum Econômico Mundial tampouco animam: eles estimam que até 85 milhões de vagas podem ser extintas até 2025, com outros 92 milhões em situação de risco por conta da IA.

E além das previsões catastróficas sobre desemprego, há ainda muitos estudos que alertam para um impacto mais profundo: o risco de um empobrecimento cognitivo coletivo. Segundo essa abordagem, o uso indiscriminado de assistentes como ChatGPT pode atrofiar nossa memória, diminuir nossa capacidade crítica e tornar gerações futuras menos preparadas para resolver problemas de maneira independente.

Nossa, quanta notícia negativa, né?

Fato: é da nossa natureza extrapolar para o pior. Não é burrice: é instintivo. Exageramos os riscos e antecipamos perigos para nos proteger caso o pior aconteça. Isso se chama viés da negatividade (negativity bias) e tem raízes evolutivas: nosso cérebro dá mais peso a estímulos negativos já que, no passado, prestar atenção a ameaças aumentava nossas chances de sobrevivência. Nossos ancestrais que superestimavam perigos — fosse um barulho na mata, um alimento suspeito, uma aproximação desconhecida — tinham mais chances de sobreviver do que os mais tranquilos. (Ainda bem que nasci gerações à frente.)

Se olharmos para a história — tanto humana quanto dos mercados — encontramos facilmente esses padrões.

E não precisamos ir tão longe: a popularização da internet, nos anos 90, é um belo exemplo. Naquela época, não faltavam previsões sombrias: as lojas físicas acabariam, os bancos quebrariam, os jornais desapareceriam, as crianças seriam engolidas pelas telas, nunca mais conversaríamos cara a cara. De fato, o mundo se transformou com a internet — ela trouxe eficiência, aproximou pessoas que antes nunca se cruzariam, democratizou o acesso à informação, abriu espaço para pequenas vozes, acelerou descobertas científicas e revolucionou a medicina, os mercados financeiros, a educação, a comunicação. Surgiram novas profissões, modelos de negócio e oportunidades para quem antes estava à margem da economia. O PIB global passou de USD 22 trilhões nos anos 90 para USD 104 trilhões em 2024, crescendo cerca de 3–4% ao ano em termos reais. Mais de 1,2 bilhão de empregos foram criados nesse período, apesar da automação e das profundas transformações no mercado de trabalho.

Claro, com a internet vieram também desafios: fake news, distração, ansiedade social. E embora a pobreza extrema tenha caído de 36% para 8,5% no mundo, a desigualdade se acentuou — é verdade. Mas, no saldo geral, convenhamos: a internet não destruiu o mundo. Ela o redesenhou — e, em muitos aspectos, para melhor.

Também é importante lembrar o que se passou no mundo dos investimentos, no outro extremo. Vivemos o chamado “boom da internet” entre os anos 90 e 2000, que culminou no famoso estouro da bolha das ponto-com. Eram IPOs em série, empreendedores principiantes tornando-se multimilionários da noite para o dia, plataformas online surgindo a cada esquina. Valuations de empresas que ninguém conhecia disparavam, muitas vezes sem lastro, sem modelo de negócios sustentável, sem base de clientes sólida — às vezes, sem nem mesmo receita. A euforia era generalizada, alimentada por expectativas exageradas e dinheiro fácil. Muitos investidores acreditavam que a internet dominaria o mundo e que quem ficasse fora dela seria varrido do mapa. Assim, concentravam suas apostas nas empresas que surgiam, mesmo sem conhecê-las a fundo, mesmo diante de valuations exorbitantes — afinal, queriam participar da festa. Quando a bolha estourou, no início dos anos 2000, a ressaca foi proporcional: cerca de 80% das empresas que haviam aberto capital desapareceram ou perderam relevância significativa.

Por outro lado, foi justamente desse cenário que emergiram algumas das gigantes que moldariam o capitalismo digital nas décadas seguintes: Alphabet (fundada em 1998, IPO em 2004), Amazon (1994, IPO em 1997) e eBay (1995, IPO em 1998) são bons exemplos. Empresas já consolidadas, como Apple e Microsoft, souberam se reinventar, enquanto outras, como Salesforce (1999, IPO em 2004), conquistaram espaço e protagonismo. No fim, ficou a lição: enquanto muitos negócios foram engolidos pela euforia, alguns poucos conseguiram transformar aquela revolução em valor real e sustentável.

(Quem tentou fazer stock picking naquele mar revolto teve grandes chances de morrer na praia, enquanto quem simplesmente comprou o S&P 500 acabou, de forma indireta, exposto ao crescimento das vencedoras que sobreviveram e moldaram o capitalismo nas décadas seguintes.)

Mas a maior lição que tiro da dotcom bubble e do boom da internet é que os extremos quase sempre estão errados. Eu sempre lembro de Howard Marks: o pêndulo do mercado oscila entre ganância e medo — e raramente para no meio, onde costuma estar o verdadeiro valor. Essa metáfora também ajuda a refletir sobre o momento atual: empresas fundamentais para a cadeia de suprimentos da inteligência artificial vêm atraindo enorme atenção — e, junto com ela, projeções de crescimento astronômicas e valuations elevados (ao meu ver, ainda não a ponto de uma bolha). Precisamos observar isso tudo com muuuuita cautela.

O mesmo vale para as previsões mais catastróficas sobre a IA.

A verdade é que sempre há dois lados de uma mesma moeda — seja falando do impacto da IA no mundo, seja avaliando uma tese de investimento. A pessoa (ou investidor) mais bem preparada é aquela que consegue assimilar e mensurar tanto os riscos quanto as oportunidades.

Embora a inteligência artificial traga desafios enormes, ela também abre oportunidades extraordinárias. O Goldman Sachs, por exemplo, estima que a IA generativa pode acrescentar cerca de USD 7 trilhões ao PIB global nos próximos 10 anos, aumentando a produtividade sobretudo em setores como serviços financeiros, saúde e manufatura. Já o Fórum Econômico Mundial projeta que, apesar das 85 milhões de vagas ameaçadas, cerca de 97 milhões de novos postos devem surgir — muitos deles mais qualificados, ligados à supervisão, implementação e uso criativo da IA. Nesta linha otimista – e sem entrar na discussão previdenciária - economistas como Daron Acemoglu (MIT) destacam que, se bem geridos, os ganhos de produtividade podem até permitir a redução da jornada semanal de trabalho — algo que países como Islândia, Reino Unido e Japão já começaram a testar, com semanas de quatro dias e níveis iguais ou maiores de bem-estar.

O que me dá segurança de que a IA não ficará presa nos extremos das nossas projeções é justamente o reconhecimento de que estamos neste momento de transição e especulação — e que exagerar cenários, agora, é da nossa natureza, e sim nos ajuda na preparação para o pior – não que ele aconteça. Em carta recente de Vitalik Buterin, fundador da Ethereum, ele reconhece os riscos reais das IAs superinteligentes, mas nos lembra que o fatalismo não é inevitável. Concordo que é um momento crucial: de desenvolvermos tecnologias defensivas, de criarmos um ecossistema multipolar (em vez de deixarmos tudo na mão de um ou dois grandes players), e de tentarmos desacelerar certos avanços para dar tempo de implementarmos um maior alinhamento e melhorar nossos controles. Caso consigamos estabelecer um framework regulatório eficiente, com colaboração entre governos, empresas e sociedade, acredito que a IA trará mais avanços do que ameaças. Mais produtividade, mais descobertas científicas, mais inclusão — desde que consigamos assumir, desde já, que ela não é só uma questão tecnológica, mas também social, política, Ética.

Então, pai, depois de toda essa reflexão… o que eu complementaria na minha orientação para aquele jovem? Que ele não precisa competir com as máquinas onde elas têm uma vantagem imbatível, mas sim fortalecer o que nelas falta: valores, sensibilidade, intuição, criatividade, capacidade de cuidar do outro e lidar com problemas complexos, sutis, profundamente humanos. A inteligência emocional, hoje, é amplamente reconhecida como um dos principais fatores para predizer as chances de êxito de uma criança ou jovem. Quem está em contato com as próprias emoções, sabe compreender os outros e construir relações significativas tem um futuro promissor — qualquer que seja seu QI acadêmico.

No fim das contas, mesmo com máquinas, internet, inteligência artificial — whatever — os humanos vão seguir sendo humanos. E os humanos mais humanos serão justamente os mais valorizados.

É por isso que eu não vejo a inteligência artificial como um vilão inevitável. Ela não vem para destruir — vem para transformar. Vai bagunçar, desafiar, exigir adaptações. Mas, no saldo final, acredito que vem mais para o bem do que para o mal. Porque o risco nunca esteve na tecnologia em si, mas no que nós, humanos, escolhemos fazer com ela. O chamado do nosso tempo não é o medo, nem a idolatria: é a responsabilidade. Não vivemos à beira do apocalipse, nem às portas do paraíso — estamos numa encruzilhada. E o que vai decidir nosso caminho não são apenas os algoritmos, mas quem os escreve, os regula e os escolhe usar. O futuro, afinal, ainda tem muito de humano.

Os mais extremistas podem discordar de mim, mas eu assino embaixo da frase de Richard Bookstaber, investidor quantitativo: “Nenhum homem é melhor do que uma máquina. Nenhuma máquina é melhor do que um homem com uma máquina.” No fundo, somos mais fortes quando estamos juntos. E somos mais fortes no equilíbrio — não nos extremos.

Aviso importante. Este conteúdo tem propósito exclusivamente educacional e não constitui recomendação personalizada de investimento. Caroline Aneli Martins é profissional certificada pela CVM. As opiniões expressas refletem a visão da autora no momento da publicação e podem mudar sem aviso. Conversem com suas profissionais de confiança antes de tomar qualquer decisão financeira.

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