O jeito feminino de performar (e investir)
As mulheres da minha geração aprenderam — e muito bem — a performar. A entregar, no sentido mais corporativo da palavra: resolver com excelência, exceder expectativas, crescer, lutar, ambicionar.E não é à toa. Depois de tantas gerações fica
As mulheres da minha geração aprenderam — e muito bem — a performar. A entregar, no sentido mais corporativo da palavra: resolver com excelência, exceder expectativas, crescer, lutar, ambicionar.
E não é à toa. Depois de tantas gerações ficando para trás, tivemos apenas algumas poucas décadas para tentar recuperar o que nos foi sistematicamente negado. Por isso, passamos a acreditar que só havia um caminho: nos esforçar o dobro — ou talvez o triplo — inspirando-nos nos modelos masculinos de sucesso. Para conquistar nosso espaço, adotamos um ideal que exigia dureza, controle, culto à hierarquia, invulnerabilidade. Incorporamos, muitas vezes sem perceber, o script de um profissional estereotipicamente masculino.
Mas a que preço?
Por conta desse modelo tão “manly” de viver o trabalho, muitas mulheres têm se afastado da própria feminilidade — deixado de alimentar sua sensibilidade, de ouvir sua intuição, de encontrar tempo para deixar aflorar o seu lado anima. No vocabulário de Carl Jung, anima é a dimensão feminina da psique: ligada ao sentir, ao imaginar, ao criar, ao acolher. Um lado que, longe de ser fraqueza, é fonte de equilíbrio — e potência. Quando nos afastamos demais desse núcleo, porém, abrimos espaço para o desequilíbrio — e muitas vezes, para o colapso. Não é coincidência que tantas mulheres brilhantes acabem esgotadas, em crises de identidade ou em burnouts severos.
Jung já falava da importância de integrar anima e animus — o feminino e o masculino internos — como caminho para uma psique saudável. E talvez esse equilíbrio seja, hoje, o nosso maior desafio.
Foi num café recém-descoberto em Lisboa (aliás, recomendo: DoBeco) que essa conversa teve origem. Eu dividia experiências de vida com uma amizade recém-nascida, uma catarinense linda, inteligente e simpática com quem logo me identifiquei. Ela também mora entre países, está vivendo (ou sobrevivendo a) um pós-burnout, também com o coração em reconstrução — e, como eu, filha de pais exigentes. De tudo que trocamos naquele encontro, esse foi o tema que mais permaneceu — um assunto que surgiu do coração, ecoou na mente e pediu para ser difundido aqui, em forma de texto. Porque, no fundo, vejo que todas estamos sentindo — ainda que em silêncio — que esse modelo já não serve mais para os dias de hoje.
Talvez o verdadeiro próximo passo no avanço feminino — e é nisso que escolho acreditar — seja abandonar a tentativa de nos encaixar em um modelo que jamais nos contemplou. Afinal, quem definiu o padrão masculino de trabalho foi o próprio público masculino. Talvez o verdadeiro progresso esteja justamente em reconhecermos o valor — e nos apropriarmos conscientemente — das nossas próprias ferramentas, aquelas inerentes à nossa essência. Em entender que os aspectos mais ligados ao feminino — tantas vezes reprimidos ou subestimados no ambiente profissional — podem ser exatamente o que mais falta (e o que deveria ser mais valorizado) nas empresas e nos cargos de liderança de atualmente. Especialmente num mundo em que o conhecimento técnico se tornou não apenas acessível, mas comoditizado (obrigada, IA!).
Hoje, o que se torna escasso é justamente aquilo que não se copia nem se automatiza: empatia, sensibilidade, escuta, paciência, comunicação… Inteligência emocional. Competências que Daniel Goleman já apontava como diferenciais de liderança no mundo contemporâneo — e que poucos comentam, mas também representam uma vantagem competitiva real no universo dos investimentos. E o melhor: são atributos que, em geral, nós mulheres temos de sobra.
E que os próprios investidores homens de sucesso reconhecem como fatores-chave:
· “O sucesso nos investimentos não está relacionado ao QI... o que você precisa é de temperamento para controlar os impulsos que levam outras pessoas a cometer erros.” – Warren Buffett
· “Os maiores erros de investimento não vêm de fatores informacionais ou analíticos, mas de fatores psicológicos.” – Howard Marks
· “É preciso ter um temperamento que não se entusiasme demais por seguir a multidão — nem por ir contra ela.” – Charlie Munger
Isso não é apenas uma percepção teórica — é corroborado por dados. Um estudo clássico, Boys Will Be Boys (Barber & Odean, 2001), analisou mais de 35 mil contas de investidores americanos e mostrou que os homens negociam cerca de 45% mais do que as mulheres, motivados pelo seu excesso de confiança (overconfidence). O resultado? Retornos anuais líquidos significativamente menores — chegando a perder quase três pontos percentuais ao ano por conta do excesso de trades. As mulheres, por sua vez, tendem a operar com mais parcimônia, menos movidas pela ânsia de “bater o mercado” ou de competir com os outros. São mais conscientes dos riscos e tomam decisões com maior equilíbrio emocional. Investem como vivem: com cautela, disciplina e mais sensibilidade. E, nesse universo volátil que tanto premia o autocontrole, isso se traduz em vantagem - que nos investimentos equivale a maiores retornos.
Essa constatação — entre tantas outras — está no cerne do livro Warren Buffett Invests Like a Girl (LouAnn Lofton), que inspira e dá nome à minha marca. A obra reforça que Buffett adotou, ao longo de décadas – e ainda adota - exatamente esse estilo racional e paciente de investir: menos transações, menos ruído, mais foco nos riscos e no longo prazo. Ou seja, ele investe como uma mulher — no melhor sentido possível. 😉
Ao final daquele café, recebi um convite mais que especial da minha nova amiga: uma aula de cerâmica, num dia qualquer desses. Amei a ideia! Havia algo de bonito — quase terapêutico — em moldar o barro com as próprias mãos. Talvez porque, no fundo, fosse justamente disso que estávamos falando: de reaprender a moldar a própria vida. Com mais presença. Com mais leveza. E com mais verdade. Prometi também ajudá-la a investir de forma mais feminina. Porque investir como uma mulher não significa ser mais conservadora, insegura ou menos racional — como tantas vezes nos fizeram crer. Significa, sim, considerar o risco com seriedade, operar com disciplina, pensar no longo prazo. Significa usar a inteligência emocional como aliada. E entender que prosperar não é correr mais — é saber para onde se está indo.
Invest Like a Girl não é somente o nome de uma marca. É uma escolha. Um posicionamento claro de que nosso jeito de investir — e de viver — tem valor. E pode, sim, ser um diferencial competitivo. No mercado. No trabalho. E na vida.