Recomeços
Por Caroline Martins
Eram 17h55 de uma terça-feira mais cinza que o habitual em Londres. Anna corria ofegante pelas ruas úmidas de Bank Street em direção à estação de Canary Wharf, se equilibrando num par de Louboutins clássicos, ainda desconfortáveis. Comprados há menos de seis meses, jamais imaginara que os usaria num dia comum de trabalho. A sola vermelho-brilhante era exatamente do mesmo tom de suas unhas quadradas e impecáveis, e dois tons mais clara que os botões de seu blazer de tweed xadrez, que lhe caía perfeitamente. A peça parecia saída de uma vitrine da Chanel — embora tivesse sido comprada às pressas, sem muito critério, em um daqueles sites chineses que descobrira numa de suas noites em claro.
Comprara os Louboutins pensando em um futuro que já não mais existia: seu noivado com Alexander Reid — o homem que, por quase um ano, acreditara ser o amor da sua vida. Ele quem a incentivara adquiri-los, numa de suas muitas demonstrações de apreço por marcas de grife. Hoje, ele se tornara apenas mais um colega vaidoso na Stonebridge Capital — ainda que ocupasse uma posição de prestígio como braço direito do fundador da firma. Alexander era gestor do maior fundo de renda variável da casa, que todavia acumulava meses de desempenho decepcionantes. Por sorte, o andar de Investor Relations ficava dois níveis abaixo da Gestão — distância suficiente para evitar constrangimentos desnecessários.
Fazia cinco meses que Anna saía do escritório toda terça-feira antes das 18h para sua sessão com a Dra. Laura Alvarez. Nos demais dias da semana, ainda se curvava à etiqueta informal dos high performers de Canary Wharf — se estendendo até à noite, fosse mergulhada em relatórios, fosse em seus próprios estudos ou simplesmente tentando adiar a inevitável conversa silenciosa consigo mesma.
Levava trinta e nove minutos entre o trabalho e o consultório da Dra. Laura — tempo suficiente para tentar organizar os pensamentos desconexos. As sessões, embora não custassem setecentas libras, também eram um pequeno luxo para si— e desconfortável à sua maneira, como os sapatos que ainda insistiam em apertá-la. Durante o trajeto, Anna tentava priorizar, sem muito critério, as urgências da semana: por que ainda se sentia mal com os clientes que descobriam, tarde demais, que renda variável varia?; Como aceitar a pequena pontada de inveja ao ver a irmã mais nova celebrando seu primeiro ultrassom — e lidar com a dúvida incômoda: ainda queria ser mãe, ou era só medo de ficar para trás?; Por que sonhava com Alexander, implorando que voltasse e, finalmente, lhe dizendo os elogios que, por orgulho ou medo, sempre guardara em silêncio? Pior, por que parte dela ainda se aquecia nesses sonhos? E as amigas, insistindo em passar uma semana na Sardenha, enquanto a volatilidade do mercado atingia as máximas históricas — como se férias pudessem costurar as falhas que o comportamento humano, e a vida adulta, insistiam em rasgar.
— Excuse me, sorry! — disse Anna, atravessando a passos largos a movimentada Westbourne Grove e desviando dos turistas que, entre sacolas e guarda-chuvas, disputavam espaço com o vento e a pressa. Estava sete minutos atrasada para sua sessão, ainda que, pela primeira vez em muito tempo, não sentisse culpa. Sentia-se, de alguma forma, no controle.
A fachada discreta da clínica quase se confundia entre os cafés minimalistas de Westbourne. Anna entrou no prédio ajeitando a alça da bolsa, como se preparasse para apressar ainda mais o passo. Num movimento rápido, prendeu seu cabelo ruivo-escuro num coque improvisado, daqueles que só quem tem fios longos consegue fazer sem elástico — um nó simples, mas que deixava escapar a tensão no gesto. Sentia o calor úmido da pele grudando no forro do blazer de tweed: o corpo estava agitado, enquanto seu olhar mantinha-se sereno.
A recepção, como quase sempre àquele horário, estava vazia. Subiu os dois lances de escada em menos de um minuto e bateu de leve à porta de madeira clara.
— Pode entrar, Anna — a voz de Laura soou tranquila do outro lado.
A sala era a mesma de sempre: duas poltronas de couro caramelo, um divã marrom de toque aveludado que, à distância, parecia convidativo, mas decepcionava no deitar-se; um tapete marfim, macio sob os pés, discreto como tudo naquele lugar; e estantes que cobriam três paredes e alcançavam o pé direito da sala, abarrotadas de livros gastos, com páginas marcadas por mãos que já os tinham visitado mais de uma vez. Tudo silenciosamente acolhedor, como se oferecesse um convite para ligar aquilo que se sente com o que se diz, sem julgamentos.
Anna se acomodou na poltrona habitual, de frente para a janela. Tirou os Louboutins num movimento discreto, ficando apenas de meias e deixando escapar um curto gemido de alívio.
— Como você está hoje? — perguntou Laura, cruzando uma perna sobre a outra com suavidade.
Anna pensou antes de responder. Não queria soar ansiosa, nem parecer arrogante ao insinuar que já merecia alta.
— Me sentindo mais consciente . Mais dona de mim. Embora isso não tenha impedido minha cabeça de fazer mil perguntas no caminho até aqui.
— E o que essas perguntas diziam?
Anna olhou pela janela, onde o vidro embaçado pela chuva deformava as luzes da rua, como promessas que o tempo havia abafado.
— Que, no fundo, ainda é difícil aceitar certas coisas.
Uma pausa.
— A sensação de estar ficando para trás. O dilema entre responsabilidade e prazer. O sucesso de quem já não caminha mais ao meu lado. Os sonhos que eu finjo não querer mais.
Laura esperou em silêncio, com aquela presença firme e invisível que Anna começava a aprender a valorizar.
— Às vezes — continuou —, sinto muita falta dele. Não do que éramos no final, mas... Do que eu imaginei que seríamos. Dos pedaços bons que existiam. — Baixou o olhar. — E sonhar com isso é ainda pior. Porque me faz alimentar uma ilusão.
O celular vibrou dentro da bolsa, que sempre ficava em seu colo. Anna, num impulso quase inconsciente, espiou a notificação:
Comunicado Interno — Stonebridge Capital
Prezados, informamos que Alexander Reid está deixando a Stonebridge Capital para se dedicar a projetos pessoais. Agradecemos pela contribuição nos últimos anos e desejamos sucesso em seus novos caminhos.
O coração acelerou antes que o cérebro pudesse se manifestar. Soltou o celular na bolsa e fechou os olhos por um instante.
— Perder — disse em voz baixa — nem sempre é sobre quem foi embora. Às vezes sinto que me perdi muito antes de perder o relacionamento. A boa notícia é que, aos poucos, tenho me reconquistado. Tenho me escolhido. Tenho me amado.
Laura permaneceu em silêncio, apenas escutando.
— Amar sempre me pareceu o sentimento mais nobre que eu poderia viver — continuou Anna, com a voz perdendo força para a emoção, que já aparecia em seus olhos que resistiam em piscar. — Mas é como se, cada vez que amo, eu entregasse pedaços de mim que não consigo recuperar.
Respirou fundo, tentando organizar o que ainda doía.
— Quando termina — prosseguiu — sobra um vazio que não é só da ausência do outro. Eu perco a parte de mim que era parte de algo maior. Como se eu tivesse que me reconstruir do zero, lembrando de quem eu era antes — e de quem ainda posso ser depois.
Olhou para Laura buscando, mesmo sem esperanças, alguma palavra de conforto.
— A verdade é que eu não sabia que o amor podia ser tão bonito, e ainda assim destruir tanto.
Laura inclinou-se levemente, como quem sabia a hora exata de intervir.
— Jung dizia que nós não somos o que nos aconteceu — disse com calma. — Somos o que escolhemos nos tornar.
Fez uma pausa breve, dando chance à Anna complementar. Sem sucesso, prosseguiu:
— Talvez reconstruir a nova Anna não seja sobre resgatar o que se quebrou, mas sobre escolher, com ainda mais consciência, o que merece permanecer, o que merece ganhar espaço daqui para frente.
A sessão seguiu com pausas longas e temas mais banais, como se ambas soubessem que nada dito a partir de então teria mais força do que aquilo que já havia sido absorvido. Anna permaneceu sentada, sentindo o peso — e a estranha leveza — de quem começa a entender que, às vezes, curar não é sobre apagar o passado, mas escolher o que levar consigo dali para frente.
Chegando ao fim da sessão, ela calçou os sapatos devagar, quase em um gesto de reverência ao que havia deixado para trás. Desceu as escadas da clínica com delicadeza, os sapatos já não tão desconfortáveis quanto antes.
Caminhava pelas ruas agora silenciosas de Notting Hill, deixando o frio da noite queimar o seu rosto. Foi quando o celular vibrou novamente. Era Alexander. O nome piscando na tela trouxe uma contração súbita no estômago. Ela não teve coragem, ou não quis atender. Deixou tocar. O aparelho vibrou novamente. Era uma mensagem:
" Neste momento você já deve estar a par do que aconteceu. Liguei porque preferia que soubesse por mim. Enfim, pedi demissão e indiquei você como Portfolio Manager. Você sempre foi melhor do que eu. Desejo que você seja muito feliz.”
Anna parou na calçada. Leu a mensagem uma segunda vez, ainda com o coração descompassado. Depois, mais calma, uma terceira. Sorriu sozinha — não de alegria, mas daquele tipo que nasce quando a gente reconhece que algo foi bonito demais para ser esquecido, e, ainda assim, não mais para ser vivido. Guardou o celular na bolsa e continuou a caminhar.
Acabou também se perdendo no trajeto já decorado rumo à casa, seguindo o fluxo da noite enquanto buscava respostas. Quando dobrou a esquina da Portobello Road, abriu, num gesto quase automático, suas redes sociais. Foi quando congelou em meio à rua escura e vazia, ao se deparar com uma foto publicada pelo caçula da família fundadora da Stonebridge, George Stourton. Ele trocava anéis com ninguém menos que Alexander, no mesmo terno claro e impecável que, um dia, ela imaginara vê-lo usando ao seu lado. Na legenda, poucas palavras: “To new beginnings”. O coração apertou — e não foi de raiva. Nem de absoluta surpresa. Talvez apenas de algo que parecia ter, finalmente, feito sentido.
Anna sorriu de novo, dessa vez de forma mais leve. Sentia-se livre. Não precisava mais ir atrás de respostas. Abaixou o celular, olhou para o céu encoberto e pensou, quase como quem reza: "Amor, afinal, sempre foi verbo intransitivo." E seguiu. Ansiosa para seu novo começo.
Liquidez estratégica
Por Caroline