Liquidez estratégica
Por Caroline
— Amiga, eu juro que gosto dele, mas sinto que a gente não sai do lugar.
— Quanto tempo vocês estão juntos mesmo?
— Três anos.
— Três anos rendendo abaixo do CDI? Talvez esteja na hora de realocar esse portfólio, hein.
Ela riu, mas não foi genuíno. Foi aquele riso pela metade, meio amargo, daqueles que a gente solta quando a piada acerta onde dói.
— Que horror você falar isso assim.
— Ué, você mesma disse que não sai do lugar. Com os juros do jeito que estão, não dá pra continuar num relacionamento que fica no zero a zero. Tá cheio de ativo bom por aí rendendo dois dígitos. Aliás, aquele teu amigo Marcos ainda tá solteiro?
Eu ri alto. Já ela, revirou os olhos e girou o canudo no segundo cold brew que tomava, como quem ocupa as mãos pra não admitir que o coração transborda de dúvidas. Fazia semanas que falávamos do mesmo assunto: o namoro com o Plínio. Segundo ela, um ótimo cara. Carinhoso, trabalhador, gentil com a mãe e que nunca esquecia datas. Mas que, ainda assim, parecia... Insuficiente. Na minha opinião, ele é mesmo sem sal. Mas eu preferia que ela chegasse a essa conclusão sozinha.
— Sei lá. Às vezes parece que tô num relacionamento pós-fixado demais. Nada surpreende, nada emociona. Uma mesmice que entedia.
— Mas você entrou nele esperando estabilidade ou achando que ele era o IPO mais promissor da década?
Dessa vez, ela gargalhou com vontade.
— Pior que sim. Entrei esperando um baita upside. A gente se conheceu quando fui pra Barcelona, lembra? Conexão absurda, foi tudo muito rápido e intenso. Achei mesmo que era uma daquelas ações que dobram de valor a cada ano.
— Lembro sim. Você se deixou levar pelo pitch promissor, mas esqueceu de analisar o balanço. Fez uma diligência meio superficial, talvez? E olha que, desde o começo, você dizia que não gostava dele na cama. Esse red flag era importante, amiga.
Ela ficou em silêncio por um instante e, então, rebateu:
— Sexo importa, mas não é tudo, né? E olha só, você mesma vive dizendo que, em algumas janelas, está tudo bem nosso portfólio render abaixo do CDI. Que faz parte, que o retorno vem no longo prazo, que compensa, que precisamos ser pacientes.
— Sim. Quando a tese continua fazendo sentido. Quando tem fundamento, visão de longo prazo, sinais de que vale a pena esperar. Mas você tem sentido evolução? Ele reconhece que precisa melhorar em certos aspectos? Porque, sinceramente, parece que você tá só rolando posição, esperando que um dia ele entregue a expectativa de retorno que você estipulou lá no início. Pensa se você está sendo realista.
Silêncio. A garçonete trouxe dois pães de queijo recém-saídos do forno, o que animou mais a mesa do que falar sobre Plínio.
— E agora? — ela perguntou. — Eu termino? Seguro mais? Tento conversar mais uma vez?
— Primeiro de tudo: você já fez o mark-to-market da relação?
— Fiz o quê?
— Já parou pra olhar com clareza quanto o relacionamento ainda agrega hoje? Sem apego ao preço que você pagou lá atrás ou às expectativas que colocou pro futuro? O que ele te oferece de bom hoje, considerando os pontos que você não gosta, compensa?
Ela ficou quieta, pensando. Olhou pela janela. Lá fora, pessoas passavam com casacos leves e muita pressa nos passos. Já ela parecia parada — dentro do café e dentro de si.
— A real é que... acho que tenho medo de abrir mão.
— Medo de estopar a posição e ficar com toda essa liquidez só pra ti? Isso é um luxo!
— Pois é. Mas não saberia o que fazer com esse montante todo pra mim, amiga.
Ficamos em silêncio por alguns segundos. Ela parecia longe, perdida em cálculos mentais que planilha nenhuma conseguiria solucionar.
— Pensando bem... — ela disse por fim, levantando o olhar, agora menos perdido. — Talvez seja melhor mesmo deixar num CDB de um banco de primeira linha, sem carência, que renda menos, mas me deixe dormir em paz. Melhor isso do que continuar presa num pseudo growth stock que só promete e não consegue entregar o mínimo aceitável.
— Ou talvez… seja o momento perfeito de não investir em nada.
— Como assim? Cash is trash!
— Nem sempre. Fica líquida. Respira. Não busque retorno agora, só presença. Te fortalece — logo tu vais achar o melhor caminho.
Ela respirou fundo, como quem entende que, às vezes, pausa também é estratégia.
Então se levantou devagar, como quem não toma uma decisão, mas age naturalmente, com o coração.
— Tô indo, tá?
Olhou pela janela, onde o mundo continuava correndo lá fora. Me abraçou com calma e completou:
— Obrigada por ser tão incrível.
E saiu a passos firmes, mas sem pressa — como quem aceita que, antes de qualquer recomeço, vem a pausa para a (auto) análise.