Pratyāhāra na Córsega: ignorando o barulho
Córsega combina uma beleza inigualável com uma curiosa miscelânea cultural. Situada ao norte da Sardenha e a oeste da Toscana, a ilha é geograficamente italiana e politicamente francesa — ainda que todos os locais com quem interagimos se id
Córsega combina uma beleza inigualável com uma curiosa miscelânea cultural. Situada ao norte da Sardenha e a oeste da Toscana, a ilha é geograficamente italiana e politicamente francesa — ainda que todos os locais com quem interagimos se identificassem mais com o gelato do que com o croissant. A mistura de línguas é um traço marcante: o francês é a língua oficial e predomina nos assuntos formais, mas o corso — parente próximo do toscano — resiste nas conversas do dia a dia, sobretudo entre os mais velhos e nos paesis, como chamam os pequenos vilarejos. O cenário natural, por si só, é arrebatador: cercada pelas variações de azul-turquesa do Mar da Ligúria, do Tirreno e do Estreito de Bonifácio, Córsega exibe montanhas que despencam no mar, falésias imponentes e enseadas secretas de águas calmas e cristalinas. É um paraíso que, ao mesmo tempo que encanta e convida, esconde em seus mares correntes silenciosas, medusas traiçoeiras, ventos impetuosos e tempestades imprevisíveis — lembrando que até os lugares mais idílicos carregam riscos escondidos. Assim como nos mercados. Ou, ainda, nos relacionamentos.

Nascer do Sol em frente à nossa casa, em Bastia - 31/07/2025 6:13h
Coincidências à parte, ainda que realizada e agradecida por passar uma semana off neste refúgio paradisíaco e na melhor das companhias, eu também me sentia uma miscelânea por dentro — um verdadeiro descompasso, daqueles que lembram a bolsa brasileira em dias de alta volatilidade. Não me faltavam motivos. Já fazia semanas que eu havia me afastado da minha rotina regrada: vinho quase diário — cortesia da visita da minha irmã; refeições pouco saudáveis; treinos espaçados; sessões de terapia interrompidas. Havia também razões mais nobres que igualmente mexiam comigo: transbordava em mim uma felicidade inquieta, própria de quem retoma um amor especial, mas que vinha carregado de saudade e outras emoções intensas. Além disso, eu vivia um marco pessoal importante: os primeiros dias na ilha coincidiram com o desmame do antidepressivo que me acompanhara por seis meses — um aliado valioso, mas cuja partida eu brindava como quem reencontra sua própria força. Para completar, eu estava no auge da TPM: aquela fase do mês em que o corpo pesa, os pensamentos se confundem e as emoções oscilam como um gráfico intradiário do Bitcoin.
(Por falar nisso, os mercados pareciam espelhar meu caos interno: índices americanos registravam a pior semana desde abril, enquanto, no Brasil, julho foi coroado como o pior mês do ano para o Ibovespa, entre tensões comerciais e o tom duro dos dirigentes de política monetária, que mantiveram a taxa básica de juros em 15%.)
Dentro da charmosa casa frente-mar que alugamos em Bastia — de cuja varanda, em dias de céu límpido, se avistava a ilha de Elba, famosa por ter sido o exílio de Napoleão Bonaparte — o barulho também ecoava. Era final de manhã, e todos se aglomeravam na sala, aguardando aquela inesperada tempestade de verão passar. A bebê de seis meses alternava entre balbucios animados e gritos de euforia ao descobrir, pela primeira vez, o sabor doce e a textura macia do melão corso; enquanto os amigos, já àquela hora, brindavam com Cap Corse Mattei, aperitivo à base de vinho e ervas típico da ilha. Meu namorado, fiel às suas origens italianas, discutia em voz alta com o seu corretor ao telefone, caminhando de um lado a outro e gesticulando energicamente, transbordando uma inquietação difícil de disfarçar. Até o nosso shar pei — normalmente um exemplo de discrição — entrava na onda, libertando seu latido grave e quase inédito, na tentativa de chamar atenção dos humanos.
Enquanto a casa vibrava em euforia, dentro de mim o pedido era de recolhimento: a ansiedade crescia, a TPM clamava por silêncio, e o coração buscava um momento de introspecção. Foi quando decidi, em meio àquele caos divertido, estender meu tapetinho de yoga no canto da sala. Ali mesmo, na frente de todos. Meu siciliano favorito, ainda em call, me lançou aquele olhar meio julgador, meio descrédulo, que depois veio a ser confirmado em palavras: “— Não acredito que tu consegues praticar em meio a tanta bagunça, mi amor”. E eu, lendo seus pensamentos, apenas assenti com um sorriso à la Monalisa, ao mesmo tempo que tirava meus AirPods da caixinha e já começava a me acalmar ao som de Arabesque, de Debussy, que se encaixava quase perfeitamente ao ritmo da minha respiração Ujjayi. Naquele exato momento, eu já não ouvia mais a bebê, nem o latido do cão ou as gargalhadas humanas. Escutava apenas o som constante da minha respiração — aquele sopro quente e ritmado que lembrava o vai e vem das ondas do mar. Ainda que percebesse que estavam comentando sobre mim, meu interesse pelo que diziam era nulo. A cada inspiração e expiração, eu me desligava cada vez mais daquela sala e mergulhava para dentro de mim, onde reencontrava, pouco a pouco, o meu equilíbrio.
Foi mais para o final da prática, com o corpo suado e o coração palpitante, que percebi que a casa também havia mudado seu ritmo. As vozes minguaram, as pessoas se dissiparam, a tempestade dava lugar a um fim de tarde bonito, ensolarado e de temperatura amena. Até o cão, antes agitado, acomodara-se ao meu lado e se alongava preguiçosamente, como se ensaiasse um Urdhva Mukha Svanasana. Quando finalmente me deitei para o Śavāsana — a postura final, em que o corpo repousa imóvel no tapetinho — a quietude me envolveu como um cobertor invisível. À primeira vista, o asana do cadáver parece a mais simples posição do yoga — mas, para muitos, é a mais desafiadora delas. Fisicamente, não há mistério: basta deitar de costas, pernas estendidas e ligeiramente afastadas, braços relaxados ao lado do corpo, palmas voltadas para cima. Os ombros se soltam em direção ao chão, a mandíbula relaxa, a língua repousa no céu da boca, e os olhos permanecem suavemente fechados. O difícil é manter o corpo imóvel e, ao mesmo tempo, a consciência desperta — não se deixar prender pelos pensamentos, mas também não bloqueá-los: permitir que cheguem, observá-los sem apego e deixá-los ir.
Ali, percebi meu êxito em praticar o pratyāhāra — atingi o recolhimento dos sentidos, como nos ensina Patañjali nos Yoga Sutras. Não se trata de bloquear a mente ou fugir do mundo externo, mas de permitir que os estímulos venham e passem, sem apego. Os sons ora ensurdecedores passaram a não me incomodar mais; eles apenas vinham e iam. Então foi ali, no Śavāsana, já deitada e relaxada, agradecendo pela oportunidade de ter respeitado a minha vontade de parar, que um pensamento me visitou. Eu o deixei passar naquele momento, mas guardei-o para mais tarde dividir com vocês por aqui: no yoga, é ignorando o barulho que alcançamos a prática verdadeira. Ainda que mais fácil falar do que fazer, no mercado financeiro não é diferente. O ruído do investidor é incessante: manchetes diárias, opiniões de especialistas, projeções de bancos, provocações de assessores, recomendações de influencers. Todos competem pela nossa atenção, ignorando o essencial: a estratégia de investimento e a saúde financeira das empresas.
Os investidores iniciantes, sufocados por tanto estímulo, perguntam-se: “como investir sem acompanhar o noticiário 24/7? Como saber a hora certa de comprar ou vender?” E, no entanto, é justamente o contrário: quanto mais se lê, mais o barulho domina. Em fases negativas, o medo empurra muitos a acompanhar o noticiário e suas posições diariamente — os mais inseguros, de hora em hora — movidos pelo impulso de agir: vender no prejuízo, trocar de estratégia, reinvestir para recuperar rápido. Nas fases eufóricas, o efeito é o mesmo: corre-se para comprar a ação da moda, mesmo estando cara, ou seguir recomendações das corretoras que mudam semana após semana. Afinal, o negócio delas depende da sua movimentação. Quanto mais emotivos somos nesses momentos, mais damos nosso dinheiro aos intermediários.
O fato é que o ruído, seja no medo ou na euforia, sempre nos atrapalha. Por isso, em dias de excesso — na vida ou nos mercados— é importante lembrarmos de olhar para dentro e não para fora. De respirar. Desligar o computador. Ignorar o noticiário em excesso. Confiar na sua estratégia e não agir por impulso.
Se tiverem um tapetinho por perto, estendam-no. A prática sempre nos ajuda a silenciar aquilo que não importa.
Namastê — e bons investimentos.