Crônica

O verdadeiro alpha da vida

Investidores de sucesso raramente escrevem sobre amor. Talvez porque costumam ter retornos bem abaixo da média nesta seara. No caso de Warren Buffett, embora tenha acumulado bilhões com sua visão para os negócios, sua vida amorosa foi bem m

C
Carol Martins
Fundadora · ILG
5 min17 jun 2025

Investidores de sucesso raramente escrevem sobre amor. Talvez porque costumam ter retornos bem abaixo da média nesta seara. No caso de Warren Buffett, embora tenha acumulado bilhões com sua visão para os negócios, sua vida amorosa foi bem menos estável. Ainda assim, vez ou outra, ele deixa escapar uma pérola — daquelas que misturam humor, genialidade e uma sinceridade desconcertante.

Buffett é conhecido por ser um dos maiores e mais longevos investidores da história. À frente da Berkshire Hathaway há quase 60 anos, transformou uma antiga empresa têxtil em um império multibilionário — e suas cartas anuais aos acionistas se tornaram leitura obrigatória não só para quem investe em suas ações, mas também para aqueles que apreciam uma boa combinação de sabedoria financeira com humor afiado. Em uma dessas cartas icônicas, não muito tempo atrás, ele soltou uma reflexão inesperada, que mais parecia uma dica amorosa do que um conselho de investimento:

“A vantagem de ser bissexual é que você dobra as chances de encontrar um parceiro para jantar no sábado à noite.”

É tanta frustração no amor que às vezes me pergunto por que sou tão fiel à minha escolha heterossexual. Se eu fosse mais flexível nesse aspecto, talvez as chances estivessem a meu favor. Brincadeiras à parte, minhas amigas solteiras são absolutamente maravilhosas — lindas, inteligentes, bem-sucedidas, bem resolvidas, maduras e acumulam anos de terapia. Ok, eu também tenho muitos amigos incríveis — amáveis, parceiros, bem-sucedidos, sarados e tratados... Mas todos estão comprometidos. Ou são gays.

Independentemente da orientação sexual ou do gênero do parceiro, é curioso como tendemos a superestimar os relacionamentos amorosos — e, ao mesmo tempo, relegar as amizades ao segundo plano. Como se o amor romântico fosse o ápice da realização afetiva, e os amigos, apenas coadjuvantes desta história. E se fosse the other way round?

É verdade que o amor romântico pode nos proporcionar experiências que as amizades talvez não ofereçam — como o grau de intimidade ou a construção de uma família. Mas a amizade, por sua vez, pode ser mais segura, duradoura e generosa. E, muitas vezes, oferece algo que o amor romântico nem sempre garante: leveza, constância e a liberdade de ser quem se é, sem tantas cobranças ou expectativas.

Nos investimentos, costumo dizer que os amigos são como os ETFs, enquanto namorar é fazer stock picking.

ETFs, ou exchange traded funds, são fundos listados em bolsa que replicam o desempenho de um índice acionário específico — como o S&P 500 nos EUA ou o Ibovespa no Brasil. Eles oferecem uma forma simples, diversificada e de baixo custo de investir em dezenas ou centenas de empresas de diferentes setores ao mesmo tempo. Já o stock picking é o oposto: em vez de comprar o mercado como um todo, o investidor escolhe algumas poucas ações específicas, apostando que elas terão desempenho superior à média. É uma abordagem mais ativa, com mais riscos — mas que, se der certo, pode gerar retornos bem acima da média de mercado. Ou uma dor de cabeça proporcional.

Como os ETFs, nas amizades diversificamos nosso envolvimento emocional. Estamos expostos a várias personalidades, geografias, contextos de vida. Não dependemos de um único ativo emocional. É um amor líquido: fácil de entrar e sair — e, o melhor, sem a necessidade de due diligence constante. Eles estão ali quando você precisa, com baixo custo de manutenção e alto retorno afetivo.

Já os relacionamentos amorosos… ah, esses são puro stock picking. Você escolhe uma tese, estuda a fundo, se envolve emocionalmente, acompanha cada oscilação de humor, analisa cada resultado — e, ainda assim, pode acabar decepcionada. Sempre tem um risco que não conseguimos antecipar. É uma aposta concentrada. Pode dar muito certo, claro. Mas, se der errado, o prejuízo vai além do financeiro: envolve o tempo dedicado, as memórias construídas, as conversas que marcaram, a energia emocional investida — e, muitas vezes, uma longuíssima curva de recuperação.

A maior prova de que somos seres irracionais talvez seja esta: mesmo sabendo de todo o risco envolvido em um stock picking — ou em investir all in num amor romântico — entramos de cabeça nessas teses. Eu que o diga... Estou no mercado há mais de 10 anos e estudo essa dinâmica desde então. E posso dizer com propriedade: tanto no amor quanto no dinheiro, mesmo com o alto risco de sairmos machucados demais para tentar de novo, frequentemente o fazemos. Ainda assim há muita gente, depois de um grande tombo, que jura nunca mais voltar ao stock picking — e passa a investir exclusivamente nos ETFs da vida. Afinal, são os amores mais seguros, mais estáveis, mais previsíveis. Também tenho amigas que, desiludidas de relações passadas, preferiram adotar um cachorro e investir nas amizades longevas.

No meu caso, mesmo depois de alguns drawdowns, sigo gostando de escolher umas açõezinhas com potencial — sempre com meus ETFs ali, garantindo estabilidade emocional na carteira. E sim, sigo acreditando num amor para a vida toda, apesar de todos os tombos. Talvez não seja ingenuidade ou burrice. Talvez seja só resiliência.

Mas o coração, como o mercado, é bastante imprevisível. Às vezes — mais por sorte do que por mérito — acertamos em cheio numa ação e temos um retorno extraordinário em pouco tempo. Outras vezes, encontramos aquela pessoa que parece feita sob medida para nós. No fim do dia, o que importa é o saldo líquido ao longo da jornada: se, na combinação entre nossos ETFs emocionais e os stock pickings mais arriscados, seguimos acumulando ganhos ao longo do tempo, estamos no caminho certo. Se conseguimos estar felizes entre amores e desilusões — com o apoio constante dos nossos amigos —, talvez isso já seja o verdadeiro alpha da vida.

Porque, no fundo, não se trata de evitar perdas a todo custo, mas de seguir investindo naquilo que faz sentido pra nós. E, com sorte e coragem, colher os frutos de um portfólio equilibrado: concentrando no que vale a pena, e diversificando o resto quando for preciso.

Que sigamos investindo com consciência e acumulando boas amizades.

Aviso importante. Este conteúdo tem propósito exclusivamente educacional e não constitui recomendação personalizada de investimento. Caroline Aneli Martins é profissional certificada pela CVM. As opiniões expressas refletem a visão da autora no momento da publicação e podem mudar sem aviso. Conversem com suas profissionais de confiança antes de tomar qualquer decisão financeira.

Radar ILG · grátis

Gostou da leitura? Tem mais toda semana.

O Radar ILG chega no seu e-mail, de graça: análises de investimentos com a mesma voz destas crônicas.

Grátis para sempre. Cancele quando quiser.

35 edições publicadas, escritas por Caroline Aneli Martins, CNPI, aprovada nos níveis I e II do CFA, MBA pela FGV e consultora de investimentos registrada na CVM. Leia o arquivo completo antes de assinar.

Última edição#61

O Petróleo que vira inflação e o Brasil como destaque global (por ora)

E mais: Nike saindo do clube dos gigantes e Spoiler sobre a Super Quarta

13 set 2026 · 11 min de leitura

Comunidade ILG

Continue com a gente na Comunidade ILG

A comunidade brasileira de educação financeira feita por mulheres, para mulheres. Análises semanais da Carol, encontros ao vivo e ferramentas para aplicar no seu dinheiro real.

  • Radar semanal com a tese por trás de cada decisão
  • Encontros ao vivo “Pergunte à Carol”
  • Comunidade privada só de investidoras
  • Planilhas, calculadoras e trilhas práticas
Conhecer a Comunidade

Comece grátis. Nos planos pagos, 7 dias de garantia.