Crônica

Chuvas, downgrades e outros riscos

Muito embora eu adore gerenciar riscos nos portfolios de investimento, eu frequentemente ignoro o risco de chuvas quando viajo. Prefiro colocar mais um sapato do que desperdiçar espaço da mala neste objeto tão inconveniente que é o guarda-c

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Carol Martins
Fundadora · ILG
5 min12 jun 2025

Muito embora eu adore gerenciar riscos nos portfolios de investimento, eu frequentemente ignoro o risco de chuvas quando viajo. Prefiro colocar mais um sapato do que desperdiçar espaço da mala neste objeto tão inconveniente que é o guarda-chuva. E, afinal, gosto de acreditar que pegarei tempo bom — mesmo quando a previsão mostra o oposto. Wishful thinking – ou ingenuidade - em sua melhor versão.

Meus primeiros dias em Zurique foram maravilhosos, ainda que chuvosos. Embora o início de junho ainda não seja oficialmente verão por lá, as precipitações primaveris da Suiça são como uma versão europeia das nossas chuvas tropicais: fortes, repentinas e passageiras — com um toque mais frio e civilizado.

Saí de uma reunião às 20h em ponto. O sol ainda dourava as fachadas impecáveis de Paradeplatz – uma das áreas mais sofisticadas de Zurique. Eu caminhava sem pressa por aquelas ruas, contemplando sua arquitetura neoclássica imponente, onde bancos de investimento, boutiques de luxo e escritórios de advocacia dividiam minha atenção com os trams elétricos. Eles emitiam um barulho suave, deslizando discretamente sobre os trilhos, como se soubessem que a cidade pedia discrição.

Em meio à contemplação, eu digeria mentalmente os assuntos tratados na reunião: falamos sobre renda variável global, sobre alguns fundos tradicionais de private equity que começavam a alocar mais na Europa, o impacto das tarifas do Trump para os mercados emergentes, e obviamente sobre a crise fiscal que assombra não só o Brasil, mas também os Estados Unidos.

Não pude deixar de pensar, também, na coincidência um tanto provocativa do destino que, em meio às seletivas reuniões, me colocou para conversar justamente com um executivo do banco que tinha o mesmo nome do meu ex-namorado — e sua mesma nacionalidade. Às vezes, parece que a vida gosta de testar o nosso progresso emocional. Ele era good-looking, inteligente, articulado e educado. Um “AAA” — ao menos à primeira vista.

Na linguagem das agências de rating, um AAA representa a maior nota em termos de qualidade de crédito: designa estabilidade, solidez financeira, modelo de negócio robusto e risco quase nulo de inadimplência. É o tipo de ativo que transmite segurança para o investidor — confiável, consistente, aparentemente à prova de decepções. Mas, como tudo na vida, também pode ser uma ilusão bem apresentada. Não é incomum encontrarmos investment grades que são rebaixados a nível especulativo de um dia para o outro (Lojas Americanas que o diga!). Às vezes, basta uma análise independente e um pouco mais profunda para perceber que a solidez não passa da superfície. No caso dele, o risco era óbvio: ele era muito novo. Acompanhando a Moody´s e o downgrade recente que fez na dívida americana, precisei rebaixar o rating do garoto para AA+.

Eu estava a cerca de 10 minutos a pé do bar onde havia combinado de encontrar minhas amigas. Como era feriado nacional — e elas trabalham em bancos suíços, não americanos como o da minha reunião —, já estavam aproveitando o day off em um pub inglês, provavelmente entre uma pint e outra.

De uma hora para outra, as nuvens esconderam os últimos raios de sol e uma chuva torrencial começou a cair. Para meu azar (ou minha sorte), não havia qualquer comércio aberto onde eu pudesse comprar um guarda-chuva. Comecei então a acelerar o passo, tirei meu blazer e o coloquei sobre a cabeça — afinal, o cabelo estava perfeitamente escovado, e fazia tempo que eu não usava um figurino mais digno do que o meu dia a dia de home office. Não queria arruinar o look.

Com a mão esquerda, eu segurava duas pontas do blazer embaixo do pescoço, e com a outra acompanhava o Google Maps no celular — para não correr o risco de passar um segundo a mais do que o necessário debaixo daquela chuva inconveniente. Eu provavelmente estava ridícula — com cara de desesperada e passos apressados, tentando salvar o penteado e a dignidade ao mesmo tempo.

Ou talvez nem tão ridícula quanto eu pensava: fui surpreendida por um rapaz — um “BB” dentro da minha escala de qualidade.

BB é o rating de crédito atual do Brasil. Não é totalmente feio, mas também não é um investment grade. Está na penúltima escala do especulativo — apenas um pouco mais de esforço e talvez pudesse se tornar investível.

Foi a cantada mais elegante que já recebi — afinal, foi em inglês com sotaque francês:

— Desculpa se estou sendo invasivo, senhorita, mas estava atrás de você e, sem querer, vi que está indo na mesma direção que eu. Não poderia evitar de lhe oferecer uma carona de guarda-chuva.

Se fosse no Brasil, eu nem olharia para o lado e apressaria o passo. Acharia que era alguém tentando me furtar ou golpe qualquer. Mas eu estava na Suíça — e, afinal, ele era quase um investment grade. Então eu arrisquei e aceitei a gentileza.

Thank you so much! Você está salvando o meu penteado — Brinquei.

Ele puxou papo, perguntou o que me trazia à Zurique. Falei que queria conhecer a Suíça desde muito tempo, e que, agora, como estava num sabático, decidi vir. Ele também trabalhava no mercado financeiro — o que não surpreende — em Zurique, é mais fácil esbarrar num analista de investimentos do que em alguém que não esteja de terno.

Ele me deu algumas dicas ótimas em Lucerna, cidade que eu visitaria no dia seguinte. Também comentou que provavelmente iria para Luxemburgo no final de semana — só não iria caso eu aceitasse um convite para sair com ele.

Ousado! Senti as minhas bochechas vermelhas. E, quando fico sem jeito, solto uma gargalhada alta e um pouco desengonçada.

Não tive coragem de contar, mas eu também estaria em Luxemburgo no próximo final de semana. Lá ia o destino, outra vez, brincar comigo: talvez o universo quisesse aquele encontro — mas eu não estava nada afim. Apesar de ele ter sido um gentleman, guardei a coincidência só para mim e saí pela tangente:

- Acho que Luxemburgo deve ser lindo. Aproveita por mim e depois me passa as melhores dicas!

Quase chegando ao pub, ele perguntou se eu tinha Instagram. Menti: disse que não. Ele fingiu que acreditou, educado e respeitando meu limite. Então sugeriu que eu anotasse o seu número e, quem sabe, enviasse uma mensagem quando fosse a Luxemburgo — assim ele me passava as melhores dicas. Para um suíço, até que era bem brasileiro.

Anotei o número. Ele me deixou na porta, agradeceu pela companhia e pela conversa. Eu agradeci pela carona.

No fim, ele não era investment grade… mas admito que o coloquei em observação positiva.

Aviso importante. Este conteúdo tem propósito exclusivamente educacional e não constitui recomendação personalizada de investimento. Caroline Aneli Martins é profissional certificada pela CVM. As opiniões expressas refletem a visão da autora no momento da publicação e podem mudar sem aviso. Conversem com suas profissionais de confiança antes de tomar qualquer decisão financeira.

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