Entre conflitos, Dostoiévski e um carricante
No último domingo, enquanto o mundo fervia, eu precisei desacelerar.O noticiário anunciava que os Estados Unidos haviam entrado oficialmente no conflito entre Israel e Irã, bombardeando as três principais instalações nucleares do território
No último domingo, enquanto o mundo fervia, eu precisei desacelerar.
O noticiário anunciava que os Estados Unidos haviam entrado oficialmente no conflito entre Israel e Irã, bombardeando as três principais instalações nucleares do território iraniano — Fordow, Natanz e Isfahan. Era a primeira vez que a maior potência bélica do planeta atacava diretamente o programa nuclear iraniano. Um gesto inédito, sem declaração formal de guerra, que mudava o tom da tensão de décadas entre os países e abria espaço para algo maior — e mais perigoso. O tipo de manchete que faz o coração acelerar — não somente pelo portfólio de investimento, mas sobretudo pela nossa condição de estarmos vivos e vulneráveis.
Quando a diplomacia recua e o confronto avança, é difícil não imaginar o pior: o risco de uma escalada global, o mundo ainda mais dividido e vidas inocentes atravessadas por decisões de líderes cada vez mais irresponsáveis — algo que, infelizmente, se tornou comum no mundo de hoje. Talvez por ter me formado em Relações Internacionais, eu ainda insista em acreditar na diplomacia. Mesmo quando ela parece estar perdendo espaço.
Eu tinha mil e um planos naquele dia — um brunch de aniversário, um almoço com amigos que não via há tempos e uma despedida de solteira na praia — mas minha cabeça não acompanhava a programação. Não conseguia parar de ler o noticiário, de responder aos amigos que me procuravam com medo, de tentar prever como os índices amanheceriam no dia seguinte. O coração acelerava, e uma névoa discreta tomava os contornos da visão. Uma daquelas crises de ansiedade — silenciosas, mas certeiras — chegou de mansinho. Uma tontura longa me tomou enquanto voltava para casa a pé e entendi, escutando meu corpo, que era hora de parar.
Por sorte, eu estava a poucos passos de um restaurante italiano pertinho de casa, cujo dono já me conhecia. Sentei-me na parte externa para respirar um ar puro, pedi uma água com gás e silenciei todas as notificações do celular. Depois de sentir o coração desacelerar, pedi uma taça de Planeta Etna Bianco — um vinho que harmonizava bem com aquele momento: uma mistura entre tensão e calma. Vinho siciliano, de casta predominantemente Carricante, cultivada nas encostas do Monte Etna — combinava a mineralidade cortante do solo vulcânico com uma estrutura firme e tranquila. Como se dissesse que é possível ser delicado sem ser frágil. E talvez fosse exatamente disso que eu precisava naquele instante — algo que me lembrasse que até o que nasce do fogo pode acolher.
Na minha bolsa, lembrei que trazia comigo uma companhia inédita: Os Irmãos Karamázov, de Dostoiévski — um presente recém-ganhado de uma ex-cliente que virou amiga. Após dois demorados goles de vinho e algumas respirações longas, abri o livro. A dedicatória dela já parecia mais especial que a própria obra — delicada, certeira, como só conseguem ser os presentes que vêm de gente que sabe se conectar:
“Querida Carol, Que este clássico sirva de inspiração para teus escritos maravilhosos! Com todo meu carinho e admiração, desejando o melhor percurso na tua vida.”
E foi com essa leveza que eu mergulhei na literatura russa, torcendo para que o livro me salvasse — ou ao menos distraísse — da ansiedade que o Oriente Médio me causava. Mas Dostoiévski não alivia — quem já leu sabe. Já nas primeiras páginas, ele destaca Mítia, o filho mais velho dos Karamázov: impulsivo, desgovernado, tomado por paixões e ressentimentos mal resolvidos, talvez marcas do abandono. Seu pai, Fiódor Pavlovitch, é descrito com ironia e desprezo: um homem vulgar, egoísta, profundamente carente de sentido — quase uma metáfora encarnada dos tempos que vivemos. Tudo ali exalava intensidade: fé e niilismo, herança e rejeição, redenção e culpa.
Ainda era cedo na narrativa, mas já dava para sentir: esse não seria um livro leve. Apesar de ter me interessado, seria, talvez, o exato oposto do que eu buscava naquele momento.
Foi então que a vida real me distraiu.
Um senhor e uma senhora conversavam ao meu lado, sem pausas, entre uma gargalhada e outra. Dividiam um tiramisú generoso. A naturalidade daquele diálogo me chamou a atenção. Tive uma ponta de inveja daquilo que parecia um date octogenário — enquanto o resto do restaurante acompanhava suas telas ou deixava o celular à mostra sobre a mesa, eles mal pareciam lembrar que carregavam um dispositivo. A troca era viva demais para ser interrompida. Desviei discretamente meu foco da leitura, mas mantive o livro aberto, fingindo que ainda estava interessada na família Karamázov, enquanto me rendia, aos poucos, ao enredo daquela conversa que não era minha.
Não estava claro se eram apenas amigos — havia ali um entendimento que ia além das palavras. Nenhum deles usava aliança, e ambos já haviam falado de seus filhos: o mais novo dele morava em Paris, e a filha de quem ela mais falava era médica e esperava o segundo filho. Ela era grisalha, de corte chanel perfeitamente escovado, jeans e camiseta branca com um lenço xadrez cuidadosamente amarrado ao pescoço — básica, mas sofisticada. Ele tinha pouco cabelo, vestia camisa azul e calça social, mas calçava um tênis que demonstrava que a idade biológica era maior que sua idade de alma. Presumi que fossem ex-colegas de trabalho, já que falavam sobre o tempo em que estiveram na mesma empresa — mencionaram colegas antigos, piadas internas e davam risada ao se lembrarem do galo de estimação da Celeste, que, segundo ela, “era muito porreiro”. Riam das idas ao cinema Império depois do expediente e comentavam, com um alívio contido, que os tempos de ditadura foram difíceis, mas que ainda assim possuíam boas memórias da juventude. “O bom é que hoje, pelo menos, já podemos falar mal do governo em voz alta, sem medo.”
Também riram das ironias da tecnologia: “Nunca imaginei que tu fosses me convidar para almoçar por WhatsApp”, disse ele. Ela soltou uma risada alta e espontânea — daquelas que escapam sem filtro — mas logo a encurtou, ao perceber que todos à volta haviam se virado. Quando a conta chegou, ele sorriu e insistiu com naturalidade: “Hoje quem convida sou eu.”
Ficar ali, escutando aquela troca generosa entre duas pessoas que sabiam rir das dores do passado e saborear o presente, me trouxe uma sensação difícil de explicar — como se por alguns instantes o tempo tivesse suspendido a urgência do mundo. Enquanto eles brindavam às memórias, me dei conta de que, quando o mundo está caótico, os mercados voláteis e os pensamentos embaralhados, talvez o melhor a fazer não seja reagir ou buscar explicações, mas simplesmente se desconectar. Sair das telas. Esquecer o aplicativo. Afastar-se do excesso de ruído. E encontrar um lugar — físico ou simbólico — que traga alguma paz. Pode ser um livro. Pode ser um vinho. Pode ser a conversa alheia de duas pessoas que se tratam com carinho.
Às vezes, a vida ensina por ironia. Eu, ali, tentando encontrar leveza em Dostoiévski — mergulhada num romance denso, cheio de disputas e tensão — quando a suavidade que eu procurava estava a menos de dois metros de distância. Entre um gole de Planeta e um diálogo distraído, me lembrei de que o mundo pode estar entrando em guerra, mas isso não significa que eu precise estar também. Não podemos mudar aquilo que não conseguimos controlar, mas podemos escolher o que fazer com nossos pensamentos e atitudes. Quase sempre, é o não fazer que preserva o portfólio — e a sanidade.
Dias depois do fatídico domingo, o S&P 500 já havia voltado aos 6.100 pontos, o petróleo recuado para abaixo dos 70 dólares, e a trégua no Oriente Médio, ainda que frágil, dava espaço a novas especulações — e não a novas bombas. Já eu, sigo em frente com a lembrança viva de que nem sempre é preciso entender tudo, nem tentar controlar o que virá nesse mundo incerto e inquieto. Às vezes, basta estar. Pausar. Aceitar. Respirar. Confiar.