Crônica

Amor Crypto vs Amor Dividendo

Por Caroline

C
Carol Martins
Fundadora · ILG
4 min18 abr 2025

Investimentos têm tudo a ver com o amor. Especialmente nos dias de hoje, tempos de elevada volatilidade — tanto nos mercados quanto nas relações pessoais. Vivemos cercados por infinitas opções, acesso a informação instantânea e uma escassez quase crônica de paciência – fatores que atrapalham em ambos os assuntos. Nesse ambiente hiperconectado, tanto investir quanto se apaixonar virou um exercício constante de risco e retorno. Um pequeno deslize e você compromete seu portfólio — ou o seu coração (e com um pouco de azar, os dois ao mesmo tempo). Ambos exigem atenção redobrada, já que o cenário está fértil demais para más escolhas, seja nos rendimentos, seja na escolha de um parceiro para a vida.

Na gestão do amor, assim como na gestão do dinheiro, a consciência e a maturidade fazem toda a diferença. Precisamos saber o que queremos e estar dispostos a fazer a diligência necessária antes de nos entregarmos a alguém — ou de aportarmos em uma nova oportunidade de investimento. Sem clareza sobre nossos objetivos e limites, ficamos vulneráveis a escolhas impulsivas, que podem custar caro no longo prazo — seja emocional ou financeiramente.

Gosto de dizer que há dois tipos claros de relacionamento: o amor-cripto e o amor-dividendo. O primeiro é aquele que te leva aos céus em tempo recorde — jantares incríveis, viagens inesquecíveis, promessas de eternidade, flores em dias aleatórios e playlists românticas no Spotify — para, logo depois, simplesmente desaparecer da sua vida como se nada tivesse acontecido. Sou praticamente PhD nesse tipo (só no amor, que fique claro; em criptos da moda eu passo longe!). E, como todo investimento movido a hype, quanto maior a alavancagem emocional, maior a chance de você acabar no chão (ou no fundo do poço). É quase como ter investido em Dogecoin em 2021: quem colocou mil dólares em janeiro chegou a ter cerca de 146 mil em maio. Mas bastou o Elon Musk parar de tuitar sobre a cripto do cachorro para a moeda despencar mais de 90%. Imaginem quem comprou alavancado... Assim como no amor-cripto, quando você vai ver, sobrou só o meme — e o arrependimento.

Gráfico do Dogecoin (USD): de Jan 2021 até Dez 2022

No outro extremo, estão os relacionamentos-dividendo — estáveis, constantes, quase previsíveis. É como investir em uma empresa como a Procter & Gamble: uma gigante do setor de consumo, que paga dividendos de 2 a 3% ao ano de forma consistente há décadas, e que aumenta seus proventos há mais de 60 anos, sem falhar. Durante a crise de 2020, enquanto o mercado derretia mais de 30%, suas ações caíram bem menos e se recuperaram antes do próprio S&P 500. Não é o tipo de investimento que faz brilhar os olhos à primeira vista — mas, no longo prazo, entrega valor de forma silenciosa e sólida. Nos últimos 10 anos, as ações da P&G mais do que dobraram de valor – sem grandes solavancos. Relacionamentos assim tendem a vir acompanhados de rotinas tranquilas, pouco drama, muita parceria e estabilidade emocional. A pessoa está sempre ali, pronta pra tudo. Nunca te deixa sem resposta, nunca perde a paciência, nunca reage demais. É tudo muito... equilibrado. A gente até tenta encontrar um defeito — ou provocar uma briga só pra testar o sistema —, mas não há terreno fértil para o conflito impulsivo, apenas para conversas maduras. Eu confesso: tentei relacionamentos desse tipo, e por vezes me entediei. Talvez eu fosse nova demais — ou apenas impaciente — para apreciar o poder do retorno composto afetivo. Hoje, às vezes me pego pensando se não seria o caso de reavaliar essa estratégia. Talvez o meu perfil de investidora amorosa tenha mudado, preciso revisitar. Por outro lado, resisto a acreditar se eu estaria feliz com uma constância de 3% ao ano.

Gráfico das ações da Procter&Gamble (USD): de Jan 2015 até Dez 2024

Talvez o ponto central esteja na diferença entre capacidade e tolerância ao risco. Nos investimentos, a capacidade de tomar risco é objetiva: quanto mais jovem você é — e maior o seu patrimônio —, maior a margem para enfrentar os quedas bruscas do mercado. Já a tolerância é subjetiva: há quem, mesmo jovem e com recursos, não durma tranquilo diante de um drawdown de 30%. No amor, vejo algo parecido. Aos vinte e poucos, quando somos mais tolerantes à volatilidade emocional, a nossa capacidade de tomar risco parece infinita. A gente se joga, quebra a cara, se levanta e recomeça sem muito drama. Mas depois dos 30, essa capacidade já não é mais a mesma. O tempo parece mais escasso, e a disposição para recomeçar, menor. A tolerância pode até ser alta — mas a capacidade emocional de lidar com perdas sucessivas diminui ao longo que amadurecemos. E talvez por isso a gente comece a olhar com mais carinho para os relacionamentos-dividendo. Ou, ao menos, a desejar uma carteira afetiva mais equilibrada, que una emoção e constância na dose certa.

Aviso importante. Este conteúdo tem propósito exclusivamente educacional e não constitui recomendação personalizada de investimento. Caroline Aneli Martins é profissional certificada pela CVM. As opiniões expressas refletem a visão da autora no momento da publicação e podem mudar sem aviso. Conversem com suas profissionais de confiança antes de tomar qualquer decisão financeira.

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