Radar ILG · Edição #47 · Renda Fixa

Por que eu continuo comprando Tesouro IPCA+ em 2026

A taxa real oferecida pelo Tesouro IPCA+ 2045 passou de 7% ao ano — um nível que, historicamente, só apareceu em momentos de pessimismo extremo do mercado. Nesta edição eu te explico a tese completa por trás da minha decisão de aumentar a posição.

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Carol Martins
Fundadora · ILG
8 min07 abr 2026
7%
taxa real a.a.

Não é todo dia que o mercado oferece uma taxa real de juros acima de 7% ao ano — principalmente num ativo sem risco de crédito, garantido pelo Tesouro Nacional e com proteção integral contra a inflação. E mesmo assim, eu entendo. Muita gente olha para o Tesouro IPCA+ 2045 e pensa: “20 anos é muito tempo, será que vale a pena travar dinheiro por tanto tempo?”

Vou te contar o que eu vejo quando olho para esse mesmo número.

O que significa uma taxa real de 7%

Quando o governo brasileiro emite um título como o IPCA+ 2045, ele está dizendo: “se você me emprestar hoje, eu te devolvo o seu dinheiro corrigido pela inflação, mais 7% reais ao ano.” Essa palavra — real — é tudo. Não estamos falando dos 14% nominais que o CDI paga. Estamos falando de 7% acima da inflação. O seu poder de compra, crescendo sozinho.

Em termos simples: a cada década, o seu dinheiro quase dobra em poder real. É uma matemática que parece boa demais para ser verdade — e é por isso que historicamente ela só aparece em momentos muito específicos.

A cada década, o seu dinheiro quase dobra em poder real.

Quando essa taxa apareceu antes

Eu voltei ao meu banco de dados e listei as cinco vezes em que o IPCA+ longo ofereceu uma taxa real igual ou maior que 7% desde 2010:

  1. i.Junho de 2015 — pleno ajuste fiscal Dilma
  2. ii.Maio de 2016 — impeachment e crise política
  3. iii.Março de 2020 — choque da pandemia
  4. iv.Outubro de 2022 — corrida eleitoral e pacotes fiscais
  5. v.Agora, 2026

Percebeu o padrão? Esses momentos têm algo em comum: pessimismo extremo. O mercado cobra taxas reais altas quando não confia no futuro fiscal do país. E historicamente, essas janelas duraram pouco — de 3 a 9 meses — antes dos juros voltarem para um patamar mais civilizado.

O que eu estou fazendo na prática

Antes de qualquer coisa: eu não sei quando a janela vai fechar. Ninguém sabe. O que eu sei é que, quando ela fecha, quem travou a taxa leva aquele rendimento real para casa pelos próximos 20 anos.

Na minha carteira pessoal (e é importante frisar que essa é a minha carteira, não uma recomendação para a sua), eu estou:

  1. i.Mantendo meu colchão de segurança em Tesouro Selic — nada muda aqui.
  2. ii.Aumentando minha posição em IPCA+ 2045 nos aportes mensais — quinhentos reais a mais por mês até a taxa cair abaixo de 6,5% real.
  3. iii.Não vendendo nada da minha posição em ações para fazer isso — o aumento vem do fluxo mensal, não de uma troca de carteira.

Esse terceiro ponto é importante: quando uma oportunidade aparece numa classe de ativos, a tentação é sair de outra correndo. Mas eu aprendi, gastando dinheiro real, que o timing da rotação de carteira quase nunca compensa. Aporte mensal é aporte mensal — você ajusta o para onde, não o de onde.

O risco que ninguém menciona

O maior risco do IPCA+ longo não é o que você pensa. Não é a inflação — ela é paga. Não é o crédito — o Tesouro Nacional em moeda local não tem risco de calote no sentido clássico. O risco é você.

É você precisar do dinheiro antes do prazo, vender no meio do caminho, e levar prejuízo pela marcação a mercado. Se os juros reais subirem mais ainda — digamos, para 8% — quem comprou a 7% vê o preço do título cair. No papel, é um prejuízo que só vira real se você vender.

Por isso IPCA+ longo é um ativo para dinheiro paciente. Se você já tem suas reservas de curto prazo organizadas e consegue olhar para ele sem pensar: “e se eu precisar amanhã?” — então é aqui que a mágica do juro real compõe sem pressa.

Para quem isso faz sentido

Não vou te dizer se isso serve para você. Eu não conheço a sua vida, suas metas, seu horizonte. Mas vou te dizer quando, para mim, este tipo de ativo faz sentido:

  • Você já tem uma reserva de emergência em algo líquido (CDB DI ou Tesouro Selic)
  • Você tem pelo menos 10 anos de horizonte para este dinheiro
  • Você consegue olhar para o saldo caindo no meio do caminho sem vender
  • Você entende que a taxa contratada vai se realizar no vencimento — se você segurar

Se os quatro marcadores estão ativos, o IPCA+ longo na taxa atual é uma das melhores coisas que o mercado brasileiro oferece hoje. Simples assim.

O que vem na próxima edição

Quarta-feira vou publicar um passo a passo de como comprar o IPCA+ 2045 na sua corretora (com prints, sem enrolação) e como organizar a estratégia de aportes para quem quer começar pequeno. Também vou responder as perguntas que vocês me mandaram durante a semana sobre marcação a mercado — pode deixar a sua no comentário desta edição.

Até lá — e lembrando sempre: isso aqui é educação financeira, não recomendação de investimento. Conversem com suas profissionais de confiança, leiam o prospecto, e decidam por si.

Um beijo,
Carol

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Aviso importante. Este conteúdo tem propósito exclusivamente educacional e não constitui recomendação personalizada de investimento. Caroline Aneli Martins é profissional certificada pela CVM. As opiniões expressas refletem a visão da autora no momento da publicação e podem mudar sem aviso. Conversem com suas profissionais de confiança antes de tomar qualquer decisão financeira.