Seja um(a) investidor(a) Estoico(a) !
Para quem nunca ouviu falar na filosofia estoica, eis uma breve introdução: o estoicismo foi criado por Zenão de Cítio, na Grécia antiga, mas popularizou-se no Império Romano, já que o imperador Marcus Aurelius (conhecido como o último bom
Para quem nunca ouviu falar na filosofia estoica, eis uma breve introdução: o estoicismo foi criado por Zenão de Cítio, na Grécia antiga, mas popularizou-se no Império Romano, já que o imperador Marcus Aurelius (conhecido como o último bom imperador de Roma) dedicou-se a esta doutrina. A escola estoica preza pela fidelidade ao conhecimento, pela naturalidade e tranquilidade frente a situações extremas, pela vida prática (em que atitudes são mais importantes do que palavras/intenções), e pela aceitação daquilo que está fora do nosso controle. Legal, mas o que isso tem a ver com a mentalidade do investidor? Absolutamente tudo. O controle das nossas emoções, a prática da humildade, da paciência, da aceitação dos nossos erros (e de crescer a partir deles); a confiança em nós mesmos e a atenção em nossos próprios objetivos (sem se preocupar com a vida ou opinião alheia) são lições valiosíssimas que devemos aplicar na gestão do nosso patrimônio – aliás, já falamos de muitas delas por aqui.
Os estoicos são experts no que tange ao controle de suas emoções. No dia a dia dos mercados, é muito comum nos deixarmos levar pelas oscilações de preços. Se uma ação na qual estamos investidos começa a desvalorizar dia após dia, somos contaminados pelo humor pessimista do mercado e a tendência é de nos juntarmos à manada e nos desfazermos da posição - mesmo que não haja motivo racional para isso. O investidor estoico não se deixa levar por essa volatilidade, que é tão comum nos mercados. Pelo contrário, ele tira proveito das oportunidades que a volatilidade traz. Quando ela aparece, devemos investigar se há um motivo razoável que justifique a queda do ativo que carregamos. Se os fundamentos da empresa em questão seguirem intactos e suas perspectivas se mantiverem sólidas, o investidor estoico aproveitará esta oportunidade para reforçar a sua posição e reduzir o custo médio daquele ativo.
A humildade e a “cabeça aberta” também são características inerentes aos bons investidores. Todo investidor acima da média tem vasto conhecimento sobre sua área principal de atuação. Mas mais do que isso, ele sabe muito bem o ponto fraco das suas teses de investimento e respeita suas limitações. Lembram-se da humildade intelectual? Pois é, o investidor acima da média não pode achar que suas teses de investimento são verdades absolutas. Se as evidências vão lhe mostrando o contrário ou enfraquecendo a sua tese, é preciso reconhecer que erramos e que a tese não se sustenta mais. Somos humanos, e todos erramos – seja na vida, seja nos mercados. Reconhecer e analisar bem nossos erros é chave para que aprendamos com eles, e a partir disto nos tornemos pessoas e profissionais ainda mais preparados.
Se autoconhecer, confiar em nossa própria diligência e ter paciência com nossas teses de investimento também são pontos reforçados pelo pensamento estoico. Por isso, é preciso sim que todo investidor conheça seu perfil, entenda o básico e saiba onde está colocando as suas economias. Por mais que possamos contar com a ajuda de bons profissionais, ao final do dia seremos nós que sentiremos na pele a perda do nosso tão suado dinheiro se corrermos um risco maior do que devemos, por exemplo. E isso também vale para todos os aspectos da nossa vida: nunca terceirize uma responsabilidade referente às suas próprias decisões.
Outra lição valiosa da filosofia estoica: a melhor escola que temos é a escola da vida, a escola prática. Não há nada mais importante do que viver uma vida bem vivida, com tudo o que ela compreende: alegrias e tristezas, sucessos e fracassos, ganhos e perdas. Trazendo para o nosso universo aqui: começar a investir é a forma mais eficaz de se aprender a investir. Podemos ler todas as cartas do Warren Buffett, os Memos do Howard Marks, os livros do Ray Dalio, mas só iremos aprender a investir… investindo.
Por fim mas não menos importante, os filósofos estoicos tocam num ponto que poucas pessoas no universo dos investimentos ousam explorar: eles enxergam o patrimônio como algo secundário, não como um fim. Acreditam que a verdadeira felicidade e liberdade provêm da razão e do convívio em natureza; não da acumulação de bens materiais. Eles valorizavam a autossuficiência (autarkeia), em que a verdadeira riqueza está na capacidade de encontrar contentamento dentro de si mesmo. Trazendo para os investimentos, a lição que os estoicos nos trazem é: não invista puramente para acumular riqueza, para ver o seu dinheiro multiplicar na sua conta, para inflar o seu ego ou por acreditar que ser rico é essencial para a felicidade ou para a virtude. Invista por um propósito em especial, para viver uma vida mais confortável mas sem exageros, para poder ajudar o próximo se preciso, para tomar decisões com maior tranquilidade, priorizar aquilo que realmente importa.
“Riqueza não consiste em ter grandes posses, mas em ter poucas necessidades” - Epictetus.